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domingo, 20 de dezembro de 2020

Engano.

Quem te faz mal, nunca poderá ser sua amiga. Nem por 2 horas, nem por 15 dias. Nunca!

Às vezes temos a sensação de que o bem imediato ao lado de quem achamos que pode nos suprir em curto prazo é capaz de estender o bem estar em médio e longo prazo. Na verdade é o contrário. Te destrói e rouba consigo tudo de mais sagrado que você tem. Em algum tempo você terá sua vida ceifada. Vai ferir pessoas que te amam, vai cair num abismo que vai te manter em queda. Vai te manter em perene desespero por sentir que não pode voar, mas também porque não sabe o o que vai acontecer quando parar de cair. Certamente é lá que designam "fundo do poço" e nesse momento, vale o que você ergueu. O que te fez dar sentido à sua vida. E aí? O que você tem? Tem filhos? Está numa profissão que ama? Segue o que acreditou? Ou foi marionete de quem te indicou por onde andar e hoje te aponta que você está perdida?

Às vezes você diz que foi o mestrado quem te adoeceu. Talvez o doutorado. Ou o ambiente acadêmico. A pandemia agravou, claro. Sem falar no estresse constante. Ou simplesmente foi você mesma. Porque quando você só descobre que deveria ter sido forte e bancado suas escolhas na juventude na fase adulta, já não há tempo pra lamentar o que poderia ter sido. Mas o pior de tudo é que sempre há tempo para lamentar. E há tempo também para pensar no que poderia ter sido. O que não há é a chance de voltar atrás e fazer do jeito que você achava certo.

Penso que quem me faz mal hoje, é minha maior inimiga. Mas ela está sempre disponível. Ela pode acelerar meu fim. Ela já me deu muita dor de cabeça e me colocou em problemas terríveis. No entanto está sempre acessível, sempre disponível. Nunca me disse não. Nunca me privou de sua companhia. Ela se apresentou como saída, mas se tornou uma prisão e, olha, eu detestava me sentir presa. Como ainda detesto. Infelizmente para essa prisão não tem divórcio. Não existe nenhum lugar no qual eu possa me refugiar e ficar longe dela. E eu me sinto fraca enquanto permaneço com ela. Agora.

Hoje eu só consigo pensar que não é sobre o que você pode deixar para o mundo, mas o que você fez que pode te resgatar de volta à vida, quando tudo parecer inerte e morto.
E eu? Eu não fiz nada. Porque o que eu sonhei desde a infância, nunca consegui realizar. Tudo foi realizado por mim. Com as escolhas que me fizeram. E hoje é tarde. Não realizei sonhos.

Nem realizei a mim mesma.

E eu, que de tantos amigos sou, amigos que me fortalecem e que me animam; hoje recorro à única inimiga que me subtrai de mim a cada dia. Que me mata a cada dose.

H.T.

20/12/2020

22:35

sábado, 5 de dezembro de 2020

CORDÕES

 
Na primeira vez que te vi, estávamos numa praça e você sentiu quando uma criança caiu da bicicleta.

Será que teria sido pela queda ou por ela estar sozinha?

Você estava sozinho. E logo vi.


Uma vida de abandonos. Abandonos primariamente afetivos, depois físicos. Tantas coisas que ficam difíceis encarar, impossíveis resolver. Como diria o poeta, "o mundo é mesmo um moinho". Talvez ele triture nossos sonhos ou talvez nossos caminhos e evitem tal processo e assim passamos a vida varrendo para baixo do tapete o que constitui quem somos e tudo aquilo que nos faz viver.

Às vezes acho que quem está vivo é, antes de tudo, um ser de coragem! A gente sofre pelo rompimento primário do cordão de nossa mãe, mesmo assim insiste em viver e procurar outros cordões que justifiquem nossa existência. E não se engane! Todos estamos presos por um cordão que, senão previamente determinado, artificialmente atribuído.

Quais cordões te prendem?

Liberte-se!

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Quem sou?

Sou as reticências descontínuas.

O segundo que não se completa.

Sem tempo, sem espaço,

Sem limites ou barreiras

Sou sem fronteiras.

Interrogação em ponto final,

A ironia sem aspas.

Aposto sem vírgula.

Oposto do que deveria.

Aquela que é por ser

Sem se preocupar

Em agradar

Ninguém.

H.T. 25/11/2020

sexta-feira, 27 de abril de 2018

APENAS UM BILHETE

- Hellen, por que você faz isso?

- Todos os conselhos que recebo para seguir em frente, bem como as críticas por eu insistir em não seguir, só me levam a perceber, como as pessoas são iguais. Não é à toa que o mundo é como vemos. Os habitantes pintaram o mundo com cores tão fortes que, sobrepostas, o escureceram. E o fato de eu estar neste mundo, dá-me também o direito de redesenhá-lo e colorir com as minhas cores.

É bem verdade que me sinto como o beija-flor que na história tenta apagar o incêndio da floresta sozinho, carregando água em seu bico...
Contudo interessa-me dizer que jamais irei me arrepender de nada do que fiz para tentar suavizar as cores deste mundo. Sempre que insisto em uma situação, é porque eu sinto que de algum modo, poderia derramar ali, a tinta da felicidade. Da valorização do outro, do sentimento de que ninguém pode ser substituído e de que não é normal acostumar-se a dor.

Se no caminho daquilo que eu acreditei ser o indício de novas cores eu me deparo com engano... Se nas situações em que insisto, por insistir, dizem-me louca ou estranha... Ainda assim não há arrependimento.
Antes, eu me dou conta do meu erro. E percebo que aquela pessoa ou situação na verdade, em nada diferia dos tons que não me caem bem. Acabam de certo, por serem todos iguais, o que não é tão ruim, afinal, todos se acostumaram. Alguns são capazes até de jurar que gostam.
E eu... Eu continuarei entregando amor.

- Hellen, por que você faz isso?
- Porque cada um dá somente aquilo que tem.

Com amor,

Hellen Taynan
27/04/2018 (madrugada dentro e fora)

terça-feira, 13 de março de 2018

DEPRESSÃO

A depressão é um quarto escuro no qual só quem já esteve, sabe que não quer voltar.
A depressão é um quarto escuro que guarda monstros dentro do armário e embaixo da cama. Esses monstros só você vê, mas ninguém mais precisa, afinal você e só você é devorado por eles.
E porque só você é devorado por eles, você está só.
E eles comem tua alma, sugam tuas forças. Você se sente sufocado. Falta o ar.
Você está preso em correntes tão pesadas que não te deixam levantar.
As pessoas te olham e te dizem: reaja! Vamos, saia daí! Você não pode ser tão fraco.
As religiões te oprimem e te fazem sentir mais culpada. Deus não quer que você esteja do jeito que está.
Você está magoando sua família.
Você está magoando o próprio Deus!
Que ser tão desprezível é você!
Quando parecem se convencer de que algo não está normal, decidem ouvir uma opinião. Alguém que consiga ver tudo de fora. Este alguém te receita. Primeiro em via branca, depois azul. Uma via, duas, três ou quatro papéis.
A farmácia te vende.
Você engole. Calado.
Os dias passam e você para de chorar.
Os dias passam e você não reclama mais.
Os dias passam e você tem cada vez mais dificuldade de lembrar das coisas.
Os dias passam e você sequer sabe qual é o dia.
Os dias passam e você não sente mais nada.
Você não sente nada.
Você se torna um nada ocupado por imenso vazio.
Porque para se curar a depressão, para sair do quarto escuro, é necessário enganar o seu cérebro que você morreu. Que os monstros venceram e conseguiram te dominar.
E se você morreu, você não vai tentar suicídio. Nem vai conseguir.
E todos ao seu redor ficarão tranquilos.
Você está bem.

H.T.



#depressao #textoautoral #escritoresbrasileiros #quartoescuro #prisaopsiquica #freud #psiquiatria #psicanalise #textoscrueis #diganaoaoplagio

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

EVITE FOFOCAS: PUBLIQUE-SE!

Durante muito tempo louvei os ensinamentos do "bom velhinho" Zygmunt Bauman e apreciei, embora nunca tenha seguido, as máximas do reservar-se. Conter-se em felicidade e tristeza; poupar o mundo de saber sobre suas frustrações, sua condição física e mental afinal o que se ganha e se perde ninguém precisa saber. Ninguém deveria se importar.
Contudo, redes como Facebook, Instagram, Twitter, Blogger e as diversas possibilidades de compartilhamento de status dizem que você não é mais sócio majoritário de sua vida. Ao ler os contratos de termos de uso das redes sociais está lá que mesmo após sua morte tais ferramentas ainda detém o direito sobre o que você compartilhou. É uma espécie de pacto daqui para além.
Desse modo, também há que se lembrar da máxima "se não pode com eles, junte-se a eles". E maior do que o sistema, está quem o alimenta. Quem são? 
São centenas, milhares, milhões e bilhões que podem ter facilmente acesso a qualquer um de nós neste ciberespaço. 
Felizmente, dentre esses bilhões, existem pouquíssimos que vão sondar a vida de outro, mas que ao fazer, irão fazer com maestria sem abrir mão da oportunidade de especular sobre tudo o que veem e inventar tudo o que não veem. Vão perseguir e se informar de tudo o que o outro faz. 
Alguns, por exemplo, costumam ser inofensivos. Colecionam fotos minhas e me escrevem sobre elas. Fazem homenagens públicas, declarações de carinho. Outros repostam meus textos dando os devidos créditos. 
Outros simplesmente, vivem para tentar me derrubar. Haters (?) 
Diante disso, venho desenvolvendo uma ótima ferramenta e atalho para todos os que têm extrema necessidade de especular sobre minha vida e a qual recomendo a todos quanto leem este texto: publique-se!
Elimine as possibilidades de especulações levianas sobre sua vida. Mostre-se! 
Costumo dizer que as fofocas crescem até chegar a mim. Quando chegam, morrem. Não dou audiência para o que disseram que ouviram falar... Não tenho tempo para perder sondando a vida de ninguém. Estou muito ocupada vivendo a minha própria vida.
Paradoxalmente, é necessário vencer uma batalha todos os dias dentro de si, para que se possa viver em paz consigo e eu tenho aprendido muito bem a lição.
Meu blog é autobiográfico. Minhas fotos são. As legendas são. As músicas que ouço são. Os personagens que admiro são. Tudo o que acredito, tudo o que me transformei, o que sou e o que vier a ser é parte de uma autobiografia. Exposta. Pública. Autêntica. Minha.
Nenhum olho grande seca o mar. Nenhum farol é capaz de constranger o sol a ponto dele não brilhar. Sou o que sou. 
E que sejamos melhor a cada dia.

sábado, 2 de dezembro de 2017

HISTRIÃO DA VIDA*

Ao som de Wagner escrevo estas palavras. O peso de sua ópera compete com o do meu olhar. Que antes de peso, é pesar. 
Pela palavra incompreendida, pelo julgamento precipitado. E por quem, pela impossibilidade de amar, julga impossível ser amado. 
É pesar também por mim. Pelas palavras proferidas, pelos gestos sem retorno, pela cara lavada pelo ácido da verdade. 
Escrever ao som de Wagner exige pressa e rigidez. Não espere uma palavra que defina quem eu sou. Não espere o rosto feliz de um leitmotiv indignado. 
Apressa-me dizer o quanto sinto de pesar por minha romântica visão de querer viver Vivaldi em Quattro stagioni, quando em perene inverno, a Sinfonia Fausto me cai melhor. 
E mais do que arte, vida; o histrionismo da décadence é a pintura que melhor cai a quem não precisa de máscaras para viver sendo quem se é.

Hellen Taynan

*Contextualizando os termos:
1- Wagner: um artista em sua mais completa tradução. Uniu música e teatro sendo maestro e compositor. Ele era muito crítico quanto aos escritores da época e por isso preferia ele mesmo escrever as letras. Considero sua música demasiadamente dramática. Muito mais do que se é possível suportar por mais de 30 minutos.

2- Leitmotiv: quer dizer uma forma de conduzir que Wagner desenvolveu e que usa o mesmo tema da ópera sempre que se executa uma passagem do drama envolvendo determinado personagem.

3- Vivaldi: músico barroco do século XVII. Considero sua ópera leve, linda e feliz.

4- Quattro stagioni: "le quattro stagioni", As quatro estações, composição de Vivaldi.

5- Sinfonia Fausto: composição de Liszt, inspirada na obra de Goethe, Fausto. A obra é cheia de ocultismo, parábolas e verdades de um jovem que tinha tudo, mas queria mais. Um drama para Shakespeare nenhum botar defeito.

6- Histrionismo: modo histérico de agir. Quase caricato. Vale tudo para chamar atenção. (Inclusive tirar foto com o rímel borrado).

7- Décadence: aparece, na filosofia de Nietzsche como fato ligado primeiramente à arte e depois à própria existência. Seria o exagero, o histrionismo nos gestos e para ele, Wagner era o mais histriônico de todos os artistas. Sob o ponto de vista existencial, Nietzsche faz uma crítica sobre os que não têm domínio de si próprios, uma vez que em cada pessoa, existem diversos 'eus' e ser pessoa é meramente síntese dos nossos traços. Nesse texto, utilizei sob os dois pontos de vista. Ora para obedecer à ideia musical que ele propõe; ora para enfatizar a multiplicidade dos "eus".



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

LUAR INSONE

Queria que por uma noite, 
a tua insônia combinasse com a minha. 
Então eu pensaria tão alto em você 
que de longe você escutaria. 
Iria cada um de sua janela, olhar a mesma lua. 
Eu porque te esperava, você porque te chamei. 
A gente fazia um laço e encaixava na ponta da lua. 
Brincava de balanço para lá e para cá durante toda jornada. 
Saberíamos que a cada balanço, mais perto nós estaríamos. 
Depois já quase pronto o sol, não saudosa e sem pranto, 
a lua marota permaneceria atenta. 
Não sairia de perto até que nosso laço virasse nó 
Até que nos encontrássemos 
e fizéssemos de todas as noites, 
eternas madrugadas. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SETEMBRO É O NOVO JANEIRO

Eis que começa o ano. E o que poderia sair dele? Trocando os pés pelas mãos e caminhando ao avesso desde dezembro; fazendo dos sonhos possibilidades reais e acreditando que eram realidade, como aquele caminhante no deserto que de tanto padecer enxerga uma miragem e acredita que é um oásis. 

E assim eu estava: caminhando num imenso deserto que eu mesma encontrei enquanto procurava o que não existia no labirinto dos meus pensamentos confusos, no vão de minhas expectativas, sempre maiores do que comporta a realidade. Falhei. 

Como se não bastasse a falha, eu insisti nela. E por quantas vezes pensei em desistir? 

Dia desses um amigo me falou que existem pessoas que nos inspiram e outras que sugam nossas energias. Interpretei, em outras palavras, que todo relacionamento é uma troca de energias. Algumas pessoas ao te abraçarem, te desejarem um bom dia, ou mesmo ao sorrirem para você, vão te energizar de uma forma tão positiva, que você terá vontade de sorrir também. Outras vão te deixar com um ar pesado e podem comprometer seu humor naquele dia ou seu comportamento enquanto estiver próximo a ela.

Sempre que vou a algum lugar levo minha espontaneidade. Dias desses eu estava na boate. Tinha sido mais uma semana frustrada em que nada de novo aconteceu e quando acontecia, não era nada de muito agradável. Mas então eu estava lá e em determinado momento quando fui buscar uma água no bar, um rapaz me parou e disse: 
eu estou impressionado com sua energia! Você é muito alegre e isso contagia. Sério! Eu estava todo desanimado, pensando em ir embora, agora estou dançando!
E então eu pensei naquele minuto, como as pessoas não conseguem disfarçar sua essência, por "pior" que elas estejam. Aquele rapaz não sabia nada sobre o que eu vinha passando, quantas noites de insônia, falta de ar, choro, ansiedade... E no entanto, ele me via como uma pessoa tão alegre, capaz de contagiá-lo.  Não tive outra reação a não ser dar um abraço agradecendo por isso e neste abraço, eu transmiti tudo de melhor que existia em mim. Transmiti minha energia.

Nos eventos subsequentes que eu fui, observei mais atentamente. Não é que esse negócio de energia funciona mesmo? 

Sei que agora, em setembro, como uma fênix, eu ressurjo das minhas próprias cinzas. Eis que os dias, ainda que cinzentos, sempre guardam em algum horizonte, um lindo arco-íris e por mais pessimista que eu me defina, sei que são as cores desse arco-íris que tenho guardadas nas memórias de minha retina e que não se apagam nunca. Afinal, parafraseando a mim mesma... O que eu sou, não depende de quem você é.

Para mim, o ano começou agora. E eu digo isso isso, porque agora eu começo a receber o eco de minhas ações. Ninguém perde por ser bom, pode perder muito, por ser ingênuo, é fato. Mas a essência da bondade cedo ou tarde retorna a quem a pratica. Então nunca perca a oportunidade de transmitir o melhor de você a qualquer um que cruzar o seu caminho. Não importa quantas vezes te forem cruéis, cada um sempre vai dar apenas aquilo que tem.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O QUE VOCÊ MATARIA?

No fim é o afeto, o herói e o vilão de nossa história. E qual o sentido do afeto em nossa vida se aquele que nos abraça um dia não mais poderá? Mas o que seria de nós se não colocássemos naquele abraço toda a força do nosso amor porque quem nos abraça é digno dele?

No início é o afeto. Pode ser num simples sorriso. Quando pais e filhos, por vezes lágrimas. Um porque nasceu, outro por emoção. E ali está traçado. Como pode um pai não amar seu filho? Como pode um filho não amar seu pai? 

No meio de tudo é o afeto. O afeto é que faz perdoar. O afeto faz voltar atrás em decisões que pareciam tão certas. O afeto é o único que faz esquecer todo o mal. Briga de irmãos, amizades verdadeiras, pais e filhos... O amor é o único eterno. 

E amar dói. Dói porque tem fim. Dói porque no fim, todo amor é egoísta. Todo amor quer aquele que se ama pela eternidade que ele durar. Porque quem ama morre e quem é amado também. E qual o sentido do afeto em nossa vida se todo amor morre?

Talvez o maior castigo que Deus deu ao homem foi o desequilíbrio que todos possuem em maior ou menor medida entre a capacidade de amar e impossibilidade de esquecer. 

E se eu pudesse matar... Eu mataria a morte.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O VAZIO E O NADA

Haverá um dia em que todas as fugas serão inúteis. Haverá um momento em que todas as doses serão insuficientes para aplacar a dor de viver. Haverá um dia em que todo o amor dentro de você perguntará a você e a si próprio o que ainda faz ali. E neste dia, até o amor irá te abandonar. 
Irá silenciar dentro de você todo sentimento. Todo bem e mal serão nada. Nenhuma dor será sentida e nenhum grito será escutado dentro do imenso vazio que tomou conta de tudo o que um dia foi em você sentimento e crença de que as coisas poderiam dar certo e que tudo seria diferente.
Tudo seria diferente e foi. A cada dia um mal pior até não restar nada. Nem pior nem melhor, nem bom nem mau. Apenas o nada. O nada que nada preenche. A surdez que não permite ouvir os gritos de sobrevivência. A mudez que impede gritar por socorro. Nem prazer nem dor. O nada.
E neste dia, descobrir-se-á que todo o vazio ocupa um espaço imenso. Que seu corpo é pequeno para conter em um ser o vazio e o nada dentro de alguém que se esqueceu de si, que se abandonou após os abandonos, que se desacreditou após as decepções, que se autodestruiu para si a cada tentativa de salvar a si mesmo. Que foi assassinado pelo desamor de quem acreditava amar. 


quinta-feira, 20 de julho de 2017

FRIO PÓS-MODERNO

Cada vez mais me inquieta o frio. Inquieta-me, contudo, não o frio que o vento do inverno provoca ao tocar os rostos e mais aquele que ao tocar os rostos congela os corações. A frieza das redes que não sustentam ninguém; que favorece amizade fastfood para depois se tornar lixo descartado na faxina que os exclui.
Sem viés otimista, mas em constatação tem-se a nata da modernidade líquida: ela escorre!
Escorre e passa.
Não passa para os que ainda estão, não passa para aqueles que ainda hão de vir - depende de nós. Não passa como uma época que finda ou moda que é substituída, mas passa. Passado quase anacrônico, mais passageiro que temporal. Mas passa.
Antes de passar, é possível que deixe a gente menos gente, tal qual são as coisas mais gente que a gente. Antes de passar, é provável que amizades terminem em faxinas, relacionamentos sejam discutidos pelo whatsapp e casamentos desfeitos via skype.
De tudo isso quero me abster. Desejo estar muito longe de estar despedaçada por todo mundo e perto, inteira, de um único lugar. Aquietar a alma, dançar a vida, embriagar-me de todos os sorrisos e olhares que cruzarem o meu. Conhecer pessoas que nunca conheci e reconhecer aqueles que talvez um dia, em faxina, eu tenha limpado de minha (vida) lista.
Sim, a pós-modernidade escorre. E corre.
Escorre e lava a alma; escorre e leva o que passou; e passa como passageiro que tomou o trem e acredita que agora está no rumo certo.
Escorre e corre como as águas de um rio que nunca voltarão a afogar quem encontrou a ponte para o outro lado. O lado onde o frio corta a pele, mas não congela o coração.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

RELACIONAMENTOS DE VALORES REAIS

Um dia era uma vez um conto, uma fada, um perdido, uma esperança, um pedido, uma voto de confiança, uma vida abandonada, uma viagem, muito dinheiro, muitas mentiras, dormidas no chão. Sérias brigas, quanta humilhação! Várias tentativas, nada mais a perder. Um punho machucado, uma vida perdida. Agressões verbais, um dedo na cara, empurrões, gritos, violência sexual, dor. Um choro copioso. Todos os dias.

Uma viagem, uma despedida, uma esperança, um até logo. Uma paixão cega que - ainda - sobrevivia. Um adeus à velha vida. Adeus ao filho amado. Um suspiro, uma chamada de madrugada, a garantia de perda total, um divórcio, choro incontido, a dúvida, o arrependimento. Vou voltar, um não quero mais. Um desespero, uma gilete, o sangue vertendo, o desespero, a dor.

Por que fez isso? 
Uma louca, um viciado. Ritalina, álcool, sexo, dinheiro, dívidas. Uma traição, tantas mentiras. Ex vagabunda, outra louca, outra prostituta, outra idiota. Um irmão retardado, uma mãe safada. Acima de suspeita, dito cidadão respeitável, sempre vítima, humilhado, traído, enganado, ferido.
Melhor partido, nenhum compromisso, Peter Pan do avesso, roubou minhas asas. 

O adeus foi eterno ao que mais me importava.
Sem vida, à esmo, desfeita em mil pedaços. Tristeza, vazio, precisando de um abraço. Dos olhinhos que não mais verei, do suspiro e da alegria, daquele que se calou para sempre, que foi para não voltar, como eu também me fui.

Um dia era uma vez um conto para nunca mais, de uma fada que lhe cortaram as asas, lhe tiraram esperança e vontade de vida. Impedida para sempre de rever quem mais amava e quando quase acreditava no valor da amizade, descobriu que também tinha preço. Amizade barata, mais caro que banana, valia brigadeiros. 
45 reais. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

DIÁRIO DOS MEUS DIAS ATÍPICOS - O assaltante e a cerveja

Não importa o dia, não importa o momento. Seja qual for o tipo, todo dia é um dia atípico em uma cidade como São Paulo. Após ouvir essa frase quase que diariamente, seja diante de um engarrafamento em uma via que tipicamente não congestiona, ou de enfrentar um temporal quase dilúvio em um dia cuja previsão era sol, decidi registrar alguns episódios.

Justo no dia em que tomo essa decisão, acontece o fato mais atípico que já me ocorreu em São Paulo: um assaltante desiste de me assaltar e ainda me presenteia.

Aqui em São Paulo já me aconteceu diversas coisas. Certa vez eu estava na USP e a grana do táxi me levava apenas ao Butantã. Mas o taxista era nordestino e gostou tanto de conversar comigo que me levou à Consolação por apenas 10,00! Ele me falou da esposa, dos filhos e netos, da vida dele em São Paulo e da saudade dos que ficaram no Ceará. 

Mas o que aconteceu no dia 19 de junho de 2017 certamente superou todas as experiências.
Estava eu saindo do Center Norte e fui alertada por uma mulher que não deveria ir sozinha caminhando à estação de metrô naquela hora. Mais prudente seria tomar alguma condução. Tentei seguir o conselho, mas por engano ou coincidência a saída que peguei me deixava muito próxima ao metrô e decidi ir caminhando mesmo.

Quando estava para atravessar a avenida, dois caras se aproximam. Um deles me aborda:

- Moça, tem isqueiro?
- Não fumo, moço.
- E tem o que pra ‘nóis’?

Por alguns segundos meu coração não batia. Eu não tinha grana, mas levava em meu corpo todo o meu patrimônio: um notebook e um celular. Sem pensar muito nisso e na situação em si, olhei pro outro cara que estava apenas parado e vi que ele levava um PAC com latas de cerveja. De forma muito espontânea eu olhei pro rapaz que falava comigo, abri um sorriso de canto a canto e disse:

- Moço, eu não tenho isqueiro, mas se eu tivesse eu lhe dava em troca de uma latinha dessas!

O cara me encarou por algum tempo e falou para o amigo:
- Dá uma latinha pra moça!
- Ah, não precisa, eu tava brincando. (Falei)
- Precisa sim, moça. Você me encantou agora com esse sorriso.
- Eita! Obrigada.
- Você é linda moça. E sorriu pra mim. (falando enquanto pegava a cerveja) Quando a gente fala com as pessoas
, olham com cara feia, mas você sorriu.
- Ah, a vida já é tão estressante, né? Por que ser antipática?
- Um sorriso lindo desse.
- Obrigada.
- Você é linda, viu? Com todo respeito.
- Muito obrigada, você é muito gentil. Vou nessa. Tchau!
- Tchau.

E então eu saí correndo fingindo ter encontrado um conhecido.

A cerveja estava gelada. Abri e tomei ainda na fila da bilheteria do metrô. A cena não me saiu mais da memória. 

Foi um dia atípico em São Paulo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

DESSAUDADE

Selecionei das mais belas palavras, as melhores para te escrever. 
Te fiz cartas, versos, poemas, rimas e canções. 
Durante todos os dias te dei uma certeza de que tudo era verdade. 
Honrei as palavras mais lindas não por ser fiel a ti, mas antes mim e às próprias palavras.

Não se traem palavras por respeito. Porque em si são complexas e completas e traduzem sentimentos. 
Mas não todos! Porque estes são tão mais fortes e complexos, que embora existam todos os sentimentos para cada palavra dita, não existem palavras ditas que descrevam todos os sentimentos.

Às vezes se deseja não desejar, a isso dá-se conjugar indesejo? Antes não seria rejeitar? E assim seguem as etimologias do que queremos dizer em vão. 

A vontade de sentir uma dessaudade. 

O querer desodiar o que é indesejo porque a desalegria do antiamor lhe clama dessaudade. 

Ô dicionário incompleto esse nosso! 
Nos contempla com tamanho desagrado que nos impede de dessentir, 
E transformando alegria em tristeza, impede-nos simplesmente de desalegrar.

Dicionário que não desinventa a saudade.
Que não cria palavra que desconverta o que passou.
Castiga, maltrata, silencia.
Permite fendas na alma, e não treina ninguém que as costure.
Deixa rasuras perdidas no tempo sem sequer inventar um antídoto capaz de se correr atrás.

E fora de tempo, sou atempo.
Minguando em dessaudade
De tudo o que não passou. 

Hellen Taynan

quarta-feira, 3 de maio de 2017

RIMAS POBRES REMETIDAS A UM ENDEREÇO QUALQUER

Rimas pobres remetidas a um endereço qualquer
"Oração"



Que minha alegria durasse mais que dias
Mais que dois talvez.
Que as chamadas que recebo, tivessem mais esperança que lamento.
Que tudo aquilo que não se explica, não fosse a mim tormento.
Que antes de lançar a flecha, fosse calculado o dano.
Que toda palavra de amor, não soasse como engano.

Que minha alegria durasse mais que dias
Mais que dois talvez.
Que quando a tristeza viesse,
Um alento ali houvesse.
Que a vontade de esquecer 
Não me fizesse para sempre lembrar.

Que minha alegria durasse mais!
Mais que dois dias talvez
Que as surpresas do porvir
Fossem sorte não revés.

Que as rimas pobres fossem ricas
Aos ouvidos de algum deus
Que de mim se lembrasse,
E me conferisse a graça
Que do passado eu esquecesse.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Das vezes



Da primeira vez deu angústia.
Um nó na garganta, uma dor no peito
Era difícil respirar, dormir, falar, viver.

Depois fui digerindo.
Aceitando a condição de não ter nenhum direito.

Da segunda vez descobri que a primeira
Na verdade era terceira.
E na segunda descobri da segunda e da terceira.

Já não doeu tanto assim.
Assumi o meu papel,
Esse me é dever
Tomei a decisão
Que já passara da hora!

Mas por medo de perder ou por talvez aparente
Sede de ninho e segurança,
Correu de volta pra mim
Mas não se demorou muito.
Passou correndo, nem fez parada.

Conselhos só para afastar.
Acender a luz e apagar.
Afinal o que vale a vida?
Quais conselhos tem pra dar
Quem no amor foi fracassado?

E então teve a quarta vez.
E de primeira vez e já é família!

Quase doeu,
Quase pensei em querer saber:
Por que me castigar assim?
Só que dessa vez...

Dessa vez deu preguiça.
Coloquei meus patins e fui viver sem dor
Pela primeira vez.



terça-feira, 18 de abril de 2017

VIDA


É, moça.
A vida poderia ser perfeita. Vir organizada em gavetas, ou talvez em vagões. Cada um iria conter acontecimentos ordenados e na hora de arrumar, as coisas seriam feitas uma a uma. Em cada compartimento uma área que precisa de ordem, mas sem nunca todas em desordem.

É moça.
A vida poderia ser mais simples. A lição escolar ser limitada a somar. 2+2 = 4 e sempre será assim. Sem nenhuma prova dos nove, sem equações complexas e gigantes. Em cada operação, um resultado simples de dizer, impossível contestar.

É moça.
A vida poderia não ser surpresa. Um longa que você lê a sinopse e dirige fazendo o final que lhe convém. Uma peça de teatro que você ensaia exaustivamente antes de apresentar. Em cada lágrima um fingimento, em cada dor uma esperança.

É moça.
A vida poderia ser do jeito que você queria. Fosse o detalhe não ser assim vida. Chame-a de trem, escola, espetáculo. Vida mesmo que se faz antes de você e de tudo o que vem depois é toda desordenada. Quase nunca é calmaria e quando acontece, quase sempre vulcão. 

É moça. 
Tudo o que lhe é perfeito para quem lhe é, assim não o parece. Todos devem dançar o ritmo que toca, e você dança tão bem! 
O que te falta além de tudo? 

- Vida. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

18 anos

É como ter 18 anos!
Acordar sem prever o dia,
Rir de bobagens que são publicadas
Compartilhar essas bobagens
Esperar outras risadas
Encontrar os amigos
Dançar nas baladas
Ser a mais popular
Encher a cara 
Esvaziar a mente
E no dia seguinte...

É como ter 18 anos!
Fazer planos para o futuro.
Balada hoje, facul amanhã.
Aos 30, uma profissão.
Ap, família, viagens.

É como ter 18 anos!
Aos 30, ter um filho.
Cansei de baladas.
Noite em claro com choro de criança.
Débito automático 
Renovar o seguro do carro.

É como ter 18 anos
E todos os motivos para continuar.
Se assim tivesse, seria o futuro aos 30.
Para quem tem 32, o futuro já passou.



sexta-feira, 31 de março de 2017

AOS POUCOS...

Aos poucos vou me dando conta da escolha que fiz na qual apostei minha vida e perdi.

Há alguns dias ecoa em minha mente o quanto perguntei, insisti e por vezes fui inconveniente quando dizia: mas você tem consciência da responsabilidade? Você tem certeza que é isso mesmo? Você tem noção do quanto estou abrindo mão? E em troca ouvia "eu admito que você duvide até do meu caráter, menos do meu amor". Ou ainda "nunca tive tanta certeza em minha vida".

E eu, que nunca mudei, acreditei e me permiti. Doei-me proporcionalmente ao que recebia. Amei e de mãos dadas saltei de um penhasco sem contar que em queda livre, você acionasse o seu paraquedas e soltasse minha mão.

Você aterrizou são e salvo. Talvez reste em você alguma sombra de arrependimento, ou talvez apenas alívio. Alívio por voltar ao ponto anterior, sem nenhum dano. Sua casa, sua família, seus amigos, seu emprego, sua vida, seu estilo, gosto e preferências. Exceto pelo que eu tentei organizar, nada mudou muito.

Já eu continuo caindo. E em queda livre sem nenhum amparo ao tocar o solo, aos poucos me dou conta do tudo que perdi. E mais do que ter perdido a paz no convívio com minha família, mais que ter perdido o carinho e a oportunidade de cuidar do meu cachorro, mais que ter perdido a plástica que eu tanto sonhei e esperava, mais que ter perdido oportunidade de emprego, mais que ter perdido o convívio com meus amigos, mais que ter perdido o curso que eu tanto amava, mais que ter perdido a convivência acadêmica nos grupos de pesquisa e mais que ter perdido todos os projetos que partiriam a partir do que eu tinha, o que mais dói é ter perdido a esperança. 

O que mais dói é ter perdido a capacidade de sonhar, de acreditar, de viver. É não ter mais objetivos. É dormir e acordar e permanecer na cama, quieta, pensando em círculos sem enxergar saída no labirinto de minha mente.

Perdida. Caindo e ciente que minha vida zerou. Zerou não como desafio de recomeço, mas em ordem decrescente como desespero de quem chega ao fim.