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terça-feira, 9 de maio de 2017

DESSAUDADE

Selecionei das mais belas palavras, as melhores para te escrever. 
Te fiz cartas, versos, poemas, rimas e canções. 
Durante todos os dias te dei uma certeza de que tudo era verdade. 
Honrei as palavras mais lindas não por ser fiel a ti, mas antes mim e às próprias palavras.

Não se traem palavras por respeito. Porque em si são complexas e completas e traduzem sentimentos. 
Mas não todos! Porque estes são tão mais fortes e complexos, que embora existam todos os sentimentos para cada palavra dita, não existem palavras ditas que descrevam todos os sentimentos.

Às vezes se deseja não desejar, a isso dá-se conjugar indesejo? Antes não seria rejeitar? E assim seguem as etimologias do que queremos dizer em vão. 

A vontade de sentir uma dessaudade

O querer desodiar o que é indesejo porque a desalegria do antiamor lhe clama dessaudade

Ô dicionário incompleto esse nosso! 
Nos contempla com tamanho desagrado que nos impede de dessentir, 
E transformando alegria em tristeza, impede-nos simplesmente de desalegrar.

Dicionário que não desinventa a saudade.
Que não cria palavra que desconverta o que passou.
Castiga, maltrata, silencia.
Permite fendas na alma, e não treina ninguém que as costure.
Deixa rasuras perdidas no tempo sem sequer inventar um antídoto capaz de se correr atrás.

E fora de tempo, sou atempo.
Minguando em dessaudade
De tudo o que não passou. 

Hellen Taynan

quinta-feira, 16 de março de 2017

Por aqui as coisas continuam do mesmo jeito

É, por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. Diria que estou mais forte! Foi Nietzsche mesmo quem disse que aquilo que não nos mata, nos fortalece. E talvez seja isso mesmo. Mas talvez, também, não fosse preciso sofrer tanto. Na verdade eu sempre duvidei de que para aprender fosse necessário chegar ao extremo da dor. Ou ao menos duvidei do fato dessa dor não precisar ter um limite. É isso! Toda dor necessária ao crescimento precisa, clama, urge, implora por um limite!

Um limite que nos impeça de agir impensadamente. Um limite que nos impeça de ficar prostrada numa cama por dias, dias e dias... Um limite que nos faça lembrar do que sentimos pelo outro e em nome disso reconsiderar posicionamentos, decisões, atos e palavras.

É... Por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. A tempestade fez estrago apenas em mim. Tudo mais permanece igual. Há dias em que acordo e que quase te chamo. É difícil saber que mesmo que eu tente impedir, o sol vai estar lá fora brilhando quando o dia raiar. É cruel lembrar da verdade de Shakespeare que grita aos meus ouvidos que não importa em quantos pedaços meu coração foi partido, o mundo não vai parar esperando que eu o conserte.

A cada dia uma voz me convence que você não gosta de mim. Outra voz me diz que você gosta. Sei que ao menos uma é razão, só não sei qual. Ou talvez eu não queira saber porque como eu te disse, por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. Às vezes tento te incriminar como assassino de meus sonhos. Mas nem por isso levas culpa nenhuma porque a cada manhã se renova essa esperança, esse feixe de luz, de sonho e vontade de recomeçar. Então eu sigo acreditando que cada noite a mais, marca um dia a menos da gente se reencontrar e reescrever as linhas que pelo caminho se desviaram.

domingo, 25 de setembro de 2016

SENTIR E TRANSBORDAR

Você já gostou tanto de alguém a ponto de chorar quando pensa nessa pessoa?

Ah, mas se faz chorar não pode ser bom... Talvez não seja mesmo, mas não o sentimento. 

O sentimento é bom. Transborda. O querer bem, a vontade de ter, o sonho. 
A vontade de ter o sonho que se quer bem e saber que tal qual muitos sonhos, esse querer não é possível. E se possível, não provável.

E quanto a saber que a quem transborda sentimento tem outro alguém que nem sente tanto é mais conforto que inveja? Acho que é quase assim quando se sofre por distância. Por mais que você saiba que seria capaz de amar uma estrela de forma mais suave, compreensiva, parceira, e presente, você acaba aceitando a ideia de ter outros corpos celestes fazendo esse papel, pois ainda que torto, também é cuidador e colabora para que sua estrela permaneça suspensa no céu.

Mas esse papel secundário, coadjuvante, ínfimo e quase desnecessário também faz chorar. E chorar de distância quando se pensa em quem se ama é o prelúdio do sofrimento por amar quem não se tem. De modo que não sei mais se choro por amor ou se choro por saudade. 

Mas uma coisa é certa. 
Cada lágrima é sentimento que transborda calado e cai molhado em terra seca, lamentando um amor que não se espera mais brotar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SAUDADE

Solitate*


Do provável, o sim.
Do possível, a certeza.
Do devir, a existência.
Do amor, o absoluto.
Substantivo abstrato
De subjetividade parasitária
Manifesta num corpo concreto.
Se saudade se experimenta,
O tempo se faz presente.
Presente preto e branco de um passado colorido.
Palavra conjugada à dor
Ente da primeira alma do indicativo da solidão


Esse anima solitate.

*SE UTILIZAR O TEXTO, CITE A FONTE. PLÁGIO É CRIME!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

SAUDADE

Saudade de quando eu escolhia passar o rímel à prova d’água porque eu ponderava a possibilidade de chorar e escorrer pelos olhos. Hoje eu saio de casa sem rímel, porque não faz falta se eu passar ou não.


Saudade de quando eu ia dormir com a certeza do salto que eu usaria no dia seguinte, sabendo exatamente o olhar invejoso e até nojento de algumas meninas para os meus sapatos exclusivos e o meu andar quase em desfile. Hoje, tanto faz qualquer rasteira.

Saudade de quando meu olho era capaz de enxergar além do preto, branco e cinza no espectro e as roupas e os acessórios tinham mais cores. Hoje, só existem essas variações.

Saudade de quando eu conseguia dizer “amém” quando alguém dizia “Deus te abençoe”.

Saudade de quando eu dava “graças a Deus” e quando eu dizia “se Deus quiser”.

Saudade de quando havia Deus na minha vida.

Saudade de quando havia vida.

Saudade de mim.

Porque hoje eu não sei quem é Deus.

Porque hoje eu não sei nem quem eu sou.

domingo, 22 de março de 2015

A VERDADE É SOFRER

A minha verdade é empírica.
A minha verdade é  confiar nas pessoas.
A minha verdade é acreditar que elas serão em algum momento honestas e justas.
Sendo minha verdade, justiça, espero receber exatamente o que eu dou.
Mas a minha verdade é burra.
Porque a minha verdade está consciente que no fim nada disso acontece e que eu vou sofrer.
A minha verdade é sofrer, acreditando que cada um é diferente mesmo sabendo que são iguais.
A minha verdade é acreditar que agora estou sendo feliz, por que de fato estou.
Mas a verdade é que você está longe.
Então a minha verdade, volta a ser sofrimento.