terça-feira, 9 de maio de 2017

DESSAUDADE

Selecionei das mais belas palavras, as melhores para te escrever. 
Te fiz cartas, versos, poemas, rimas e canções. 
Durante todos os dias te dei uma certeza de que tudo era verdade. 
Honrei as palavras mais lindas não por ser fiel a ti, mas antes mim e às próprias palavras.

Não se traem palavras, pois em si são complexas. Capazes de traduzir um sentimento. 
Mas não todos! Porque estes são tão mais fortes e complexos, que embora existam todos os sentimentos para cada palavra dita, não existem palavras ditas que descrevam todos os sentimentos.

Às vezes se deseja não desejar, a isso dá-se conjugar indesejo? Antes não seria rejeito? E assim seguem as etimologias do que queremos dizer em vão. 

A vontade de sentir uma dessaudade

O querer desodiar o que é indesejo porque a desalegria do antiamor lhe clama dessaudade

Ô dicionário incompleto esse nosso! 
Nos contempla com tamanho desagrado que nos impede de dessentir, 
E transformando alegria em tristeza, impede-nos simplesmente de desalegrar.

Dicionário que não desinventa a saudade.
Que não cria palavra que desconverta o que passou.
Castiga, maltrata, silencia.
Permite fendas na alma, e não treina ninguém que as costure.
Deixa rasuras perdidas no tempo sem sequer inventar um antídoto capaz de se correr atrás.

E fora de tempo, sou atempo.
Minguando em dessaudade
De tudo o que não passou. 

Hellen Taynan

quarta-feira, 3 de maio de 2017

RIMAS POBRES REMETIDAS A UM ENDEREÇO QUALQUER

Rimas pobres remetidas a um endereço qualquer
"Oração"



Que minha alegria durasse mais que dias
Mais que dois talvez.
Que as chamadas que recebo, tivessem mais esperança que lamento.
Que tudo aquilo que não se explica, não fosse a mim tormento.
Que antes de lançar a flecha, fosse calculado o dano.
Que toda palavra de amor, não soasse como engano.

Que minha alegria durasse mais que dias
Mais que dois talvez.
Que quando a tristeza viesse,
Um alento ali houvesse.
Que a vontade de esquecer 
Não me fizesse para sempre lembrar.

Que minha alegria durasse mais!
Mais que dois dias talvez
Que as surpresas do porvir
Fossem sorte não revés.

Que as rimas pobres fossem ricas
Aos ouvidos de algum deus
Que de mim se lembrasse,
E me conferisse a graça
Que do passado eu esquecesse.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Das vezes



Da primeira vez deu angústia.
Um nó na garganta, uma dor no peito
Era difícil respirar, dormir, falar, viver.

Depois fui digerindo.
Aceitando a condição de não ter nenhum direito.

Da segunda vez descobri que a primeira
Na verdade era terceira.
E na segunda descobri da segunda e da terceira.

Já não doeu tanto assim.
Assumi o meu papel,
Esse me é dever
Tomei a decisão
Que já passara da hora!

Mas por medo de perder ou por talvez aparente
Sede de ninho e segurança,
Correu de volta pra mim
Mas não se demorou muito.
Passou correndo, nem fez parada.

Conselhos só para afastar.
Acender a luz e apagar.
Afinal o que vale a vida?
Quais conselhos tem pra dar
Quem no amor foi fracassado?

E então teve a quarta vez.
E de primeira vez e já é família!

Quase doeu,
Quase pensei em querer saber:
Por que me castigar assim?
Só que dessa vez...

Dessa vez deu preguiça.
Coloquei meus patins e fui viver sem dor
Pela primeira vez.



terça-feira, 18 de abril de 2017

VIDA


É, moça.
A vida poderia ser perfeita. Vir organizada em gavetas, ou talvez em vagões. Cada um iria conter acontecimentos ordenados e na hora de arrumar, as coisas seriam feitas uma a uma. Em cada compartimento uma área que precisa de ordem, mas sem nunca todas em desordem.

É moça.
A vida poderia ser mais simples. A lição escolar ser limitada a somar. 2+2 = 4 e sempre será assim. Sem nenhuma prova dos nove, sem equações complexas e gigantes. Em cada operação, um resultado simples de dizer, impossível contestar.

É moça.
A vida poderia não ser surpresa. Um longa que você lê a sinopse e dirige fazendo o final que lhe convém. Uma peça de teatro que você ensaia exaustivamente antes de apresentar. Em cada lágrima um fingimento, em cada dor uma esperança.

É moça.
A vida poderia ser do jeito que você queria. Fosse o detalhe não ser assim vida. Chame-a de trem, escola, espetáculo. Vida mesmo que se faz antes de você e de tudo o que vem depois é toda desordenada. Quase nunca é calmaria e quando acontece, quase sempre vulcão. 

É moça. 
Tudo o que lhe é perfeito para quem lhe é, assim não o parece. Todos devem dançar o ritmo que toca, e você dança tão bem! 
O que te falta além de tudo? 

- Vida. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

18 anos

É como ter 18 anos!
Acordar sem prever o dia,
Rir de bobagens que são publicadas
Compartilhar essas bobagens
Esperar outras risadas
Encontrar os amigos
Dançar nas baladas
Ser a mais popular
Encher a cara 
Esvaziar a mente
E no dia seguinte...

É como ter 18 anos!
Fazer planos para o futuro.
Balada hoje, facul amanhã.
Aos 30, uma profissão.
Ap, família, viagens.

É como ter 18 anos!
Aos 30, ter um filho.
Cansei de baladas.
Noite em claro com choro de criança.
Débito automático 
Renovar o seguro do carro.

É como ter 18 anos
E todos os motivos para continuar.
Se assim tivesse, seria o futuro aos 30.
Para quem tem 32, o futuro já passou.