quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PERDER-SE DE DEUS É NÃO TER SOCORRO


"Elevo os meus olhos para os montes; de onde me vem o socorro?"

Saudade mesmo eu sinto do tempo em que eu podia acreditar na resposta que seguia a pergunta acima iniciando o salmo 121 da Bíblia. 

Certa vez Rick Warren, escritor cristão, disse que nunca saberemos que Deus é tudo o que precisamos, até que Deus seja tudo o que tivermos. Essa frase soa muito bem a quem tem dentro de si, em algum lugar, um lugar para Deus. 

Dostoiévski dizia que há dentro do homem um vazio do tamanho de Deus. E a todos que se abandonaram tão longe e que de tão vazios chegam ausentar-se de si mesmos, cabe o pensamento de que não existe vazio maior que aquele deixado em quem se abandona de Deus.

A maior contradição a que pode chegar um ateu ou agnóstico é fazer uma oração porque oração requer fé. Quem ora o faz com fé, rogando por algo que espera que Deus cumpra. 

"Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito..." (Mateus 21.21)

Mas ainda assim você ora. Pede, implora e roga não para que os montes se transportem, mas para ter um pouco de fé. Nesse momento é tarde, porque Deus já fez as malas quando você o expulsou e foi cuidar dos que são DEle. Tudo o que você pode ouvir é o eco de seu grito. Não há ninguém dentro de você além de você mesmo e você é tão pequeno, tão frágil, tão falho, tão dependente.

Dentro do hiato você começa a apelar pra caridade de quem você de alguma forma feriu, mas guarda dentro de si muito de Deus. Você rasteja e se humilha a outro ser tão pequeno, frágil, falho e dependente quanto você e que agora pode te olhar e dizer: tenho pena de você.

No vazio perdido em si mesmo, sem fé, sem Deus e sujeito ao sentimento de pena do outro, você ultrapassa as barreiras limítrofes do desespero. Você eleva seus olhos para o monte, mas não vê nenhum socorro. 

Mais uma vez há vários caminhos. Não é apenas uma bifurcação. É labirinto. Você escolhe o que mais prazeroso lhe parece até quebrar-se novamente em mil pedaços e perder-se de novo até o dia em que ninguém mais vai achar e suas forças serão insuficientes para se refazer.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A GENTE PEDE DESCULPAS...

A gente pede desculpas quando esbarra sem querer. Quando derruba um copo. Quando se atrasa para um compromisso. Quando precisa dizer que não tem aquele produto na loja. Quando esquece o compromisso. Quando envia um e-mail errado. Quando no calor do momento, fere com palavras quem nunca queria ferir. 

A gente pede desculpas quando adia um encontro. Quando um amigo vai estar na mesma cidade que você e você precisou de última hora se ausentar. Quando comete um erro ortográfico. Quando faz uma brincadeira em um momento inoportuno. Quando deixa a comida queimar. Quando esquece de apanhar as roupas no varal.

A gente pede desculpas para tudo o que a gente pode voltar atrás e fazer sem erro. De tudo o  mais, deveria ser crime pedir desculpas. Desculpas por almas feridas, promessas quebradas e corações partidos, não curam, não consertam, não remediam. Não chegam nem perto de fazer a dor parar e ainda matam mais lentamente quem poderia sentir um golpe só.

Você nunca será condenado por ter sido fiel a você!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

DE LUA

É moça, você tem o dom de iluminar o dia de quem cruza seu caminho. Você causa essa impressão de "como é possível, você existir?". Seus defeitos são sempre por excessos. Você sente tanto e se entrega demais. Acredita muito e sofre mais.

Quando ama não sabe medir, por que teria o amor uma medida? Os sentimentos que provoca, quase sempre também não são medidos. Mas não por maldade, mas pela não intencionalidade dos gestos. Naturalmente moleca, sutilmente sensual, por vezes arrogante e quase sempre altruísta. Acredita em juras de amores eternos, ainda que eles acabem. Espera dos outros aquilo que os entrega. 

Não se importa de ser luz quando em si é madrugada. 

Evita o que a ofusca e se entristece quando não pode evitar. Menos por vaidade mais por guardar em si uma descrença de que é tanto o que dizem aqueles que a amam. Machuca-se profunda e irreversivelmente diante da inveja e humilhação. E ainda que todos os outros permaneçam vendo sua luz, ela mesma não vê. Vai diminuindo como uma lua que míngua e aparentemente não se renova. 

Segue que é só aparência, moça. Toda lua míngua, enche, renova e vai sempre brilhar!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Sendo bem "ISTA"

Neste Natal não desejei feliz Natal a quase ninguém. A quem o fiz, fiz no modo automático respondendo apenas os desejos de quem a mim chegava. Mais por obrigação que por entusiasmo, o que me fez refletir como é mesmo incrível como o tempo muda nossa percepção seja de ouvidos, paladar, pensamentos ou condutas. Tudo sempre está em movimento num tempo que não dá pra armazenar e deixar protegido numa caixinha. O que sobra do tempo em caixinhas são fotografias, recortes, diários, bilhetes e anotações que para um qualquer - como eu - foram um dia tão caros, como o Natal! 

Natal do Menino Deus, Jesus Cristo, que nasceu pobrezinho numa manjedoura e que você tanto respeitava e acreditava e reproduzia aquela história e memorial. A expectativa! Expectativa de reunir a família em volta da mesa e cear juntos, felizes, confraternizando, trocando juras e promessas de estar sempre junto, sempre perto. Como um ser frágil, quase vulnerável, você devia respeito, silêncio e obediência a seus pais e aos mais velhos. Você precisa segurar forte a mão do seu pai para ninguém levar você dele. Ele precisa te deixar e buscar na escola e em todas as atividades que você participa.

Daí você cresce e consegue discernir a direção que tem que seguir para chegar até sua casa. Você  tem bom reflexo e coordenação garota! Pode atravessar a rua sozinha sem a mão do seu pai para lhe guiar. E mais! Você pode ir à rua sozinha, depois a outro bairro, outra cidade, estado e país. Uau! 

Seria sensacional, não fosse por desconfiar que ao pisar fora de casa sozinha sem o calor da mão dos seus pais na sua, a frieza do mundo vai resfriando a alma. A cada dia você dá um passo maior e quando percebe, você correu tão longe que se perdeu. Perdeu-se no esquecimento das juras que fez, perdeu-se no choro que engoliu seco porque não suportava a ideia de ficar ao menos um dia longe do ninho e agora consegue sorrir todos os dias e muitas vezes vive como se não existisse nada. Nem Natal, nem Jesus, nem ceia, nem família. 

Você, que tanto exaltou sua liberdade agora anda com medo. Pensa antes de falar e não obstante todo o cuidado ainda é culpada pelo mal-estar que suas palavras causam. E ouve coisas que nunca ouviu, e sente medo e vergonha de ser quem é, e tudo o que você acreditava que era de bom, você não é mais. Sua espontaneidade de virtude, passou a defeito. Não, você não é verdadeira! Afinal, quem pode ser como você? Só pode estar sendo cínica. O mundo lhe convence que você está errada, quando na verdade você está é pequena! Você diminuiu e você vai sumindo a cada vez que cede algo que nunca faria, a cada vez que baixa a cabeça e pede desculpas, mesmo sabendo que não devia.

E então por tudo isso, você simplesmente agradece. Agradece ter congelado um pouco a alma e ter se tornado menos humana. O calor que aquecia o amor puro e eterno do coração que desejava feliz Natal com um sorriso largo, jamais suportaria o inverno glacial do mundo que te engoliu. E assim, com doses exageradas de realismo e cerveja, você aprende que ser pessimista é apenas uma tentativa tola de protelar otimismo antes de encarar a realidade.

sábado, 26 de novembro de 2016

BRAVA FLOR


Das flores que me destes, quase todas se perderam.
Apenas uma resiste e insiste manter-se viva entre todas que morreram.
Brava flor que não se entrega! A esta darei meu nome.
E assim admirada compreenderei tamanha bravura que agora é manifesta
em tom de desafio.
Que de tudo menos dói a morte,
Mas a incapacidade de fazer voltar aquilo que um dia viveu.