terça-feira, 18 de abril de 2017

VIDA


É, moça.
A vida poderia ser perfeita. Vir organizada em gavetas, ou talvez em vagões. Cada um iria conter acontecimentos ordenados e na hora de arrumar, as coisas seriam feitas uma a uma. Em cada compartimento uma área que precisa de ordem, mas sem nunca todas em desordem.

É moça.
A vida poderia ser mais simples. A lição escolar ser limitada a somar. 2+2 = 4 e sempre será assim. Sem nenhuma prova dos nove, sem equações complexas e gigantes. Em cada operação, um resultado simples de dizer, impossível contestar.

É moça.
A vida poderia não ser surpresa. Um longa que você lê a sinopse e dirige fazendo o final que lhe convém. Uma peça de teatro que você ensaia exaustivamente antes de apresentar. Em cada lágrima um fingimento, em cada dor uma esperança.

É moça.
A vida poderia ser do jeito que você queria. Fosse o detalhe não ser assim vida. Chame-a de trem, escola, espetáculo. Vida mesmo que se faz antes de você e de tudo o que vem depois é toda desordenada. Quase nunca é calmaria e quando acontece, quase sempre vulcão. 

É moça. 
Tudo o que lhe é perfeito para quem lhe é, assim não o parece. Todos devem dançar o ritmo que toca, e você dança tão bem! 
O que te falta além de tudo? 

- Vida. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

18 anos

É como ter 18 anos!
Acordar sem prever o dia,
Rir de bobagens que são publicadas
Compartilhar essas bobagens
Esperar outras risadas
Encontrar os amigos
Dançar nas baladas
Ser a mais popular
Encher a cara 
Esvaziar a mente
E no dia seguinte...

É como ter 18 anos!
Fazer planos para o futuro.
Balada hoje, facul amanhã.
Aos 30, uma profissão.
Ap, família, viagens.

É como ter 18 anos!
Aos 30, ter um filho.
Cansei de baladas.
Noite em claro com choro de criança.
Débito automático 
Renovar o seguro do carro.

É como ter 18 anos
E todos os motivos para continuar.
Se assim tivesse, seria o futuro aos 30.
Para quem tem 32, o futuro já passou.



sexta-feira, 31 de março de 2017

AOS POUCOS...

Aos poucos vou me dando conta da escolha que fiz na qual apostei minha vida e perdi.

Há alguns dias ecoa em minha mente o quanto perguntei, insisti e por vezes fui inconveniente quando dizia: mas você tem consciência da responsabilidade? Você tem certeza que é isso mesmo? Você tem noção do quanto estou abrindo mão? E em troca ouvia "eu admito que você duvide até do meu caráter, menos do meu amor". Ou ainda "nunca tive tanta certeza em minha vida".

E eu, que nunca mudei, acreditei e me permiti. Doei-me proporcionalmente ao que recebia. Amei e de mãos dadas saltei de um penhasco sem contar que em queda livre, você acionasse o seu paraquedas e soltasse minha mão.

Você aterrizou são e salvo. Talvez reste em você alguma sombra de arrependimento, ou talvez apenas alívio. Alívio por voltar ao ponto anterior, sem nenhum dano. Sua casa, sua família, seus amigos, seu emprego, sua vida, seu estilo, gosto e preferências. Exceto pelo que eu tentei organizar, nada mudou muito.

Já eu continuo caindo. E em queda livre sem nenhum amparo ao tocar o solo, aos poucos me dou conta do tudo que perdi. E mais do que ter perdido a paz no convívio com minha família, mais que ter perdido o carinho e a oportunidade de cuidar do meu cachorro, mais que ter perdido a plástica que eu tanto sonhei e esperava, mais que ter perdido oportunidade de emprego, mais que ter perdido o convívio com meus amigos, mais que ter perdido o curso que eu tanto amava, mais que ter perdido a convivência acadêmica nos grupos de pesquisa e mais que ter perdido todos os projetos que partiriam a partir do que eu tinha, o que mais dói é ter perdido a esperança. 

O que mais dói é ter perdido a capacidade de sonhar, de acreditar, de viver. É não ter mais objetivos. É dormir e acordar e permanecer na cama, quieta, pensando em círculos sem enxergar saída no labirinto de minha mente.

Perdida. Caindo e ciente que minha vida zerou. Zerou não como desafio de recomeço, mas em ordem decrescente como desespero de quem chega ao fim.

terça-feira, 21 de março de 2017

Meio amor basta

É possível que você entregue tudo de você a uma pessoa, porque a ama por inteiro. 

Você acredita que vale a pena. Você luta para dar certo. Você abdica coisas que não têm mais volta. Você faz escolhas. Você prioriza. E se doa... 

Carinho nunca falta. Compreensão e ouvidos em uma sociedade repleta de bocas e vozes. 

E assim, onde todos querem falar, você se põe ouvidos. 

Ombro amigo. 

Ouve coisas até que não gostaria, mas tenta entender e ajudar. 

E então tudo acaba. Você pensa e diz "ninguém nunca vai te amar assim".

Que isso é um fato, não se contesta. Mas há que se enxergar o outro lado.

Sim,  é verdade. Ninguém nunca vai me amar assim.

Mas e daí? Quem disse que sempre se quer um amor assim? Assistindo a um filme agora à noite, uma frase marcante diz "cada um aceita o amor que acredita merecer". E é assim! Muitas pessoas se contentam em receber um amor pela metade. Um amor mais ou menos. 

Traições, desrespeito, desleixo e falsidade da pessoa amada fazem parte de um meio amor. E acredite, muita gente quer isso! E é capaz de viver anos assim! Especialmente, quando nunca foi amado.

Vivendo anos assim, quando enfim se liberta do meio amor e encontra um amor inteiro, que desnuda toda sua alma, não consegue suportar tanto tempo. 

Tal qual Goethe disse certa vez que nem todos os caminhos são para todos os caminhantes; digo que o amor não é para todos. O amor para quem sabe amar, não é desafio. Existe por si, porque já é aprendizagem. 

O amor é desafio mesmo pra quem sabe se deixar amar de modo que é insuportável ser amado, quando não se aprendeu a receber amor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Por aqui as coisas continuam do mesmo jeito

É, por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. Diria que estou mais forte! Foi Nietzsche mesmo quem disse que aquilo que não nos mata, nos fortalece. E talvez seja isso mesmo. Mas talvez, também, não fosse preciso sofrer tanto. Na verdade eu sempre duvidei de que para aprender fosse necessário chegar ao extremo da dor. Ou ao menos duvidei do fato dessa dor não precisar ter um limite. É isso! Toda dor necessária ao crescimento precisa, clama, urge, implora por um limite!

Um limite que nos impeça de agir impensadamente. Um limite que nos impeça de ficar prostrada numa cama por dias, dias e dias... Um limite que nos faça lembrar do que sentimos pelo outro e em nome disso reconsiderar posicionamentos, decisões, atos e palavras.

É... Por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. A tempestade fez estrago apenas em mim. Tudo mais permanece igual. Há dias em que acordo e que quase te chamo. É difícil saber que mesmo que eu tente impedir, o sol vai estar lá fora brilhando quando o dia raiar. É cruel lembrar da verdade de Shakespeare que grita aos meus ouvidos que não importa em quantos pedaços meu coração foi partido, o mundo não vai parar esperando que eu o conserte.

A cada dia uma voz me convence que você não gosta de mim. Outra voz me diz que você gosta. Sei que ao menos uma é razão, só não sei qual. Ou talvez eu não queira saber porque como eu te disse, por aqui as coisas continuam do mesmo jeito. Às vezes tento te incriminar como assassino de meus sonhos. Mas nem por isso levas culpa nenhuma porque a cada manhã se renova essa esperança, esse feixe de luz, de sonho e vontade de recomeçar. Então eu sigo acreditando que cada noite a mais, marca um dia a menos da gente se reencontrar e reescrever as linhas que pelo caminho se desviaram.