terça-feira, 10 de setembro de 2019

CEDO OU TARDE?


Quando decidi levar a sério o curso de Administração e seguir carreira acadêmica, pensei no que a disciplina poderia me oferecer de mais flexível, criativo, inovador e ousado. Um mea culpa de desinteresse com uma pitada de pouca didática de alguns docentes, coloquei Marketing como o campo que poderia suprir minhas expectativas.

Nas primeiras semanas como aluna de optativas no mestrado na Paraíba, ressignifiquei a Administração em minha vida. Foi muito rápida a forma como o curso que eu havia escolhido começou a fazer todo sentido para mim. Logo eu estava tendo contato com a obra de Guerreiro Ramos, Habermas, Bourdieu, Baudrillard, Latour e com todas as conexões filosóficas que motivaram as teorias desses pensadores. Só havia um pequeno problema nisso tudo... Eles não "conversavam" com o que se estudava no Marketing.

A linha na qual eu estudava recebia o título Marketing e Sociedade. A isto me orgulho do pioneirismo da Paraíba. Porém, muitas das ideias que eu levava eram tidas como "incomensuráveis", por assim dizer. E por quantas vezes eu não ouvi coisas como: "ok, mas cadê a Administração aí?"
Ou "entendi, mas isso é Sociologia, não Marketing". 

Passei muitas noites sem dormir procurando uma teoria no marketing que me permitisse "encaixar" minhas ideias e enfim encontrei. Alguns consideram minha dissertação uma "salada epistemológica". Contudo, não são para estes que escrevi. Mas é neste ponto, que começo a pensar se é tarde demais e eu que escolhi erroneamente o marketing; ou se cheguei cedo demais a um pensamento que não cabe na época e que propõe tecer linhas interdisciplinares maiores que os pontos que as encerram e as tornam incomunicáveis.

Um professor na Paraíba dizia que não era todo mundo que acompanhava meu raciocínio e que eu teria problemas com grandes pesquisadores de mentes pequenas. Eu tomava isso com suspeição de alguém que fala por admirar algumas de minhas características que não são tão boas assim e na verdade mais me constrangem do que animam. Apenas hoje eu tenho maturidade para entender o que este professor queria dizer.

No doutorado em terras mineiras, fui apresentada a outros personagens encantadores a exemplo de Foucault, Weick, Deleuze e Guattari, que novamente me colocam no desafio de pensar como estes poderiam conversar com o marketing? E eu estou convicta de que há possibilidades e que eu tenho a capacidade de estabelecer estes diálogos. 

Porém, consigo com um só texto ser rejeitada em todos os campos!

Não basta apenas afastar a ideia micro de mercadologia do marketing quando a visão acadêmica muitas vezes está presa a esta ideia. Se para mim - e para alguns - é tão óbvia a proximidade entre os campos, para a maior parte da Academia, não. 

Em minhas duas experiências, tive a felicidade de ter orientadores que estão dispostos a ouvir minhas angústias e tentar ao meu lado buscar soluções para as dores epistêmicas que por vezes me afetam. Mas por hora tais angústias persistem. Elas surgem, por exemplo, quando recebo o parecer de uma revista do marketing pedindo que eu escolha se vou utilizar uma teoria do marketing ou uma teoria dos estudos sociais, como aconteceu hoje.

Se sei que sou apenas um grão de areia num espaço de rochas fortes e grandes, também sei que não estou sozinha e existem muitos grãos se condensando para um dia fazer diferença. Afinal, ninguém nasce grande.

Quando penso sobre ser tarde ou cedo demais, os agenciamentos fazem-me pensar pluralmente. Uma linha leva ao arrependimento e o não poder recomeçar. Outra conduz a pensar que tudo está exatamente no momento que deveria estar. Ainda é cedo. E em mim são tantos eus que oscilam e se desafiam. Eus que se sobrepõem e fazem da força, que me obriga ser uma, uma vontade de potência que me permite ser muitas.

Hellen Taynan

10/09/2019
20:19


terça-feira, 2 de abril de 2019

AUTO DO BOI EM PARINTINS: O REINADO



Parintins, 29 de junho de 2020, às 17h.

            Bumbódromo[1] cheio de moradores e turistas que chegavam a todo instante à espera do desfile dos bois. É o Festival Folclórico de Parintins e Paulo Borges é o delegado titular. Estruturacionista, burocrático, funcionalista e definitivamente confortável com o poder regulador das instituições.
O Plantão estava calmo até então, quando uma agente entrou às pressas com a notícia de um grande tumulto na frente de um dos camarotes.
- Foi agora mesmo!
Um jovem teria sido gravemente ferido por um objeto não identificado. Estava deitado ao chão, com grave sangramento e inconsciente. O movimento causara grande tumulo.
- Ordeno que isolem a área. Quero uma força tarefa deslocada para lá, precisamos chegar primeiro. Nestas ocasiões o tempo é fator determinante!
A polícia chegou igual com o Samu. O rapaz estava caído ao chão. Ao lado do rapaz, uma ave de rapina. Um Carcará, morto, provavelmente por ação humana, que parecia ter voado sangrando até ali e atingido o rapaz, que despencou do camarote.
Preso ao pé da ave, um saco plástico com um pedaço de papel. Paulo ajoelhou-se ao lado do cadáver do Carcará e abriu o papel que dizia:

Quando as duas primárias desfilarem
No início de todos os caminhos,
O perdido será quem
            Mostrará o seu destino.
Chegue antes de nada sobrar
Ou será seu desatino
Como foi o do Carcará
Que feriu o nordestino.

De certo estava diante de um enigma, que para ele não fazia nenhum sentido. Chamou sua equipe para uma reunião e mostrou o conteúdo.
- Vai haver um assassinato. Disse a agente Juliana Reis.
- Você está querendo me dizer que uma ave de rapina trouxe consigo um enredo de um assassinato? Desafiou Paulo.
- Senhor, com todo respeito, veja bem: o rapaz que foi atingido era nordestino. Mas este bilhete se refere a um destino de alguém igual foi o do Carcará. Isso não lhe parece fazer sentido?
- Claro que não, não vou acreditar num “carcará correio”.
- Isso eu lhe digo também, com base nas lembranças que tenho de infância. Lia e brincava muito com enigmas desse tipo.
 Paulo não respondeu. Era muito para ele admitir que uma mulher talvez tivesse razão e que de fato, a ave trouxera uma charada de um crime. Logo deu ordens que todos se dispersassem.
Quando todos se retiraram, leu para si a primeira linha “Quando duas primárias desfilarem...” Olhou para os flashes da TV, mas a imagem não fazia sentido. Em um site de busca local, dois bois desfilavam no anúncio da publicidade. Olhando para os bois, percebeu que ostentavam duas cores primárias: eram o Caprichoso e o Garantido. Azul e vermelho.
- Duas cores primárias! Falou Paulo em voz alta.
O discurso de Juliana, baseado nas memórias do passado, traziam plausibilidade ao que estava acontecendo. Mas Paulo ainda enfrentava resistência. Preso numa jaula de ferro socialmente construída, era o tipo ideal burocrata: racional e institucionalizado. Porém pensou que alguém corria risco de morte e o contexto de suas próprias amarras institucionais, não permitia que ele perdesse tempo idealizando o real. Tornou a ler novamente o verso.
“No início de todos os caminhos”...
- Trata-se de um momento. Um momento específico! Vamos, venham todos a minha sala agora e pensem comigo o que quer dizer o início de todos os caminhos para os bois.
Paulo falava alto e com entusiasmo como tivesse se dado conta naquele momento do risco iminente. Ignorava a ideia inicial de Juliana e quase esquecera que ela estava naquela sala não fosse por ouvir sua voz respondendo:
- O início dos caminhos, só pode ser a concentração do desfile.
- Sim! Um assassinato ocorrerá nas próximas horas na concentração do desfile. Estejam todos atentos. Busquem suspeitos, monitorem a produção dos carros. Precisamos evitar que um crime aconteça!
- Dr. Paulo, esses documentos precisam ser assinados. Disse a escrivã Deise.
Paulo olhou aflito para o relógio, mas sabia que era atividade dele não deixar pendências para o dia seguinte. Todo o efetivo estava em preparação para se dirigir à concentração do desfile, onde possivelmente estava para acontecer um assassinato, mas Paulo, engaiolado em seu ofício, adiou sua chegada ao local para assinar diversos papéis os quais ele nem sequer havia lido. E engaiolado, lembrava-se também do pássaro, que livre, morrera assassinado. Tudo o que assinava naquele instante era protocolo, o que importava era evitar o assassinato na concentração do Festival Folclórico de Parintins.
Paulo chegou trinta minutos depois. A equipe passou informações sobre o movimento tranquilo na concentração. Nenhum suspeito. O grupo do boi Caprichoso já estava pronto para o desfile, o boi Garantido ainda esperava a presença de Augusto Pimentel, responsável por movimentar o boi que ostentava a cor primária vermelha como principal.
Enquanto observavam a movimentação, uma diligência informou pelo rádio que estava acontecendo algo estranho na Granja da Vitória. A Granja parecia ter sido invadida e a casa estava toda revirada. Paulo deu ordens a sua equipe que deixassem para depois a investigação na granja. Ordenou que mantivessem o foco na concentração do desfile, afinal, era um evento de prestígio internacional e que atraía muitos turistas. Tudo tinha que ocorrer perfeitamente para não manchar a imagem do evento de Parintins.
Juliana estava intrigada com a ausência de Augusto para conduzir o boi. Já tinha escutado rumores de que ele sempre fora pontual aos ensaios e não entendia como teria se atrasado no dia mais importante. Resolveu levar sua questão a Paulo.
- Dr. Paulo, o Augusto Pimentel ainda não chegou.
- Isso é problema da organização do desfile. Estou ocupado demais tentando evitar que um crime aconteça.
Quinze minutos depois, o clima de alegria nas escolas foi dando lugar ao desespero. No instante em que uma coruja branca, em voo rasante, rasgou sobre os carros do desfile, aos fundos de um dos carros, jorrava o sangue de Augusto Pimentel, morto com uma perfuração na garganta. Sem a língua e sem as orelhas, que pareciam ter sido devoradas.
Preso por um cordão em seus dedos, um papel em um saco de plástico que dizia:

A pista foi seguida,
Execução realizada.
Mais fácil que esperava,
Pois sua equipe não é de nada.
A coruja rasgou a mortalha[2],
Agora é só esperar.

Qual a cor que falta
para festa começar?
Em breve, se preparem,
O outro também vai dançar.

- O boi Garantido está em perigo! Sim, este assassino planejou matar os homens que dão vida aos bois do evento. Vamos, precisamos ser rápidos!
Dirigiram-se à concentração do Garantido e todos já se preocupavam com o sumiço repentino de Estévão Guimarães, o outro que conduzia o boi. Apesar do clima tenso entre as equipes, as notícias ainda não haviam sido publicamente divulgadas. O público esperava o desfile começar e não seria sensato divulgar que existia um maníaco, um assassino de homens e animais e que, provavelmente ainda estava no local.
Paulo recomendou que as escolas desfilassem e que encontrassem outra pessoa para dar apoio ao movimento do boi.
Sentiram falta de Juliana, que tinha se dispersado da equipe. Roberto, outro agente, deu um recado curto que ela precisou resolver um problema pessoal. Paulo quase ignorou o fato dela não estar presente, não fosse pelo sumiço dela coincidir com o desaparecimento de Estévão Guimarães. Além do mais, pensou consigo, que poemas sobre assassinatos é bem coisa de mulher mesmo.
- Localizem a agente Juliana Reis agora e levem-na para delegacia. A partir deste momento, ela é suspeita do assassinato de Augusto Pimentel e do desaparecimento de Estévão Guimarães.
...
A cena do crime foi isolada. Logo descobriram que o objeto utilizado para furar a garganta de Tony foi uma faca roubada do arsenal dos donos da Granja da Vitória. Partiram para a Granja em busca de mais pistas.
Ao entrar na Granja da Vitória, sentiram um peso ao abrir a porta. Era o corpo de Estévão Guimarães que estava pregado nela com uma faca em sua garganta e outra em seu abdômen. As perfurações tinham atravessado o seu corpo esguio de modo que a faca alojada na garganta prendia seu corpo à porta principal da casa.
O assassinato acabara de acontecer. A Granja estava em silêncio. Todos os bichos aparentemente tinham fugido dali. Aos fundos da casa, cadáveres de porcos e vacas que após a sangria esperavam a mutilação. Mas não havia ninguém na Granja. Como Augusto, o corpo de Estévão estava sem língua e sem orelhas. Nos dedos de sua mão esquerda, um saco plástico com um papel, que dizia:

As primárias não desfilaram
Não sabem o que fazer
Nem vocês não se atentaram
Ao que vai acontecer

Arquibancadas brilhantes
E sons retumbantes
Um altar gigante
Vão nos erigir.

Nunca mais amarrado,
Simbólico era o gado,
Que hoje será real.
E todos vão sentir.

Da exploração ao poder
Todos que nos serviram
Não vão se arrepender.

Paulo tentou contato com os proprietários da Granja. Eles não queriam falar sobre o assunto. Deixaram a Granja uma semana antes, segundo eles, porque estava “mal assombrada”. Os bichos estavam nervosos e nem os cachorros obedeciam mais. Foram buscar os ovos no galinheiro e antes que começassem, as galinhas atiravam todos os ovos na direção deles.
- As galinhas estavam armadas. Todos estavam. O chicote do jumento sumiu e antes que conseguíssemos providenciar outro, Zé Baião foi açoitado pelas costas, pelo jumento. Pelo jumento!
Paulo desligou o telefone. Ele precisava entregar o relatório do plantão que apresentasse ao menos uma linha de investigação e certamente não fazia parte do relatório munição de ovos e açoite de um burro em seu dono.
...
Juliana estava na delegacia quando todos chegaram.
- Muito bem Juliana! Criativa você é, disso não tenho dúvidas.
- Mas do que o senhor está falando?
- Planejar dois assassinatos utilizando como isca uma ave de rapina.
- Mas não fui eu que matei os bois!
- E onde você estava quando assassinaram Augusto Pimentel e Estévão Guimarães?
- Eu, eu... Eu estava ajudando as vacas.
- Você está brincando mais uma vez? Vou manter você presa enquanto garanto que o desfile ocorra ainda hoje.

Paulo ordenou que encarcerassem Juliana. Na revista à agente, um bilhete em seu bolso que dizia: “Sensemaking”.
-  O que isso quer dizer, Juliana?
- Siga as pistas, Paulo. Quem sabe você não aprende que nem tudo segue uma lógica cartesiana[3].
- Vai falar por enigmas também? Pois saiba que tenho tudo planejado, e tudo o que precisa fazer sentido é que existe uma organização institucionalizada onde eu sou o chefe.
- Sensemaking[4], Paulo. Organizing[5]!
- Você está louca! Vamos, levem-na.

Juliana foi levada à cela.
O desfile dos Bois estava atrasado há duas horas e Paulo queria garantir que o evento acontecesse. O poema não saia de sua cabeça. Abriu novamente o papel “As primárias não desfilaram...” “... exploração, poder” “gado simbólico, real...”. Aquilo fazia cada vez menos sentido na cabeça de Paulo.
As equipes conversaram entre si e decidiram que o Amo do Boi[6] dos dois lados deveriam decidir quem iria dar vida aos bois. Tony Medeiros do Garantido e Prince do Boi do Caprichoso e pediram que decidissem entre eles.
- Já temos uma indicação. Queremos que os bois da Granja da Vitória deem vida aos bois de ambas as quadrilhas.
Todos caíram em gargalhadas, menos Tony e Prince que se fitaram como se estivessem se comunicando pelo olhar.
- Diante da situação que estamos vivendo, os senhores ainda encontram tempo para piadas! Façam-me o favor!
- Somos os senhores dos bois e temos poder para decidir.
Trouxeram os bois já ornamentados nas primárias cores azul e vermelho. Eles seguiam com andar firme, cabeças erguidas e olhar focado. Os bois imputavam uma postura de respeito, como nenhum outro animal naturalmente conseguiria.
Quando a equipe do Dr. Paulo chegou ao local, viu os bois tomando seus lugares em altares feitos para eles. A coruja branca assentou em seu ombro e falou: cá está a tradução. Quando ele fitou olhos para coruja, ela voou lentamente. Para trás de Paulo, todos os bichos da Granja.
Paulo correu na direção deles, estavam um pouco para dentro da concentração, o desfile estava sendo anunciado enquanto Paulo se aproximava dos animais.
- Isso não faz a menor lógica cartesiana. Dizia Paulo.
- Isso é o real. Disse o porco.
- Isso não faz a menor lógica cartesiana. Repetia.
Enquanto Paulo parecia hipnotizado por enxergar percepção e sensação como partes da realidade, os bichos arrastavam o corpo ferido de Juliana. Enquanto Paulo parecia hipnotizado por não achar sentido em tudo aquilo, os animais se encarregavam de sujá-lo todo de sangue. Enquanto Paulo parecia hipnotizado, os animais o faziam segurar a faca que ferira Juliana.
O cavalo fitou Paulo nos olhos e disse
- Olhe, você está morrendo!
- Não! Gritou Paulo e saiu correndo para o Bumbódromo ensanguentado e com a faca nas mãos.
- Dr. Paulo, o que o senhor fez?
- Eu não matei Juliana, eu não matei. Foram os bichos, os bichos!
- A Juliana está morta?
Os agentes saíram em busca do corpo de Juliana, mas não encontraram. Paulo era culpado de todos os assassinatos. Enquanto se aproximava ele gritava:
- Eu não matei Juliana e isso... isso não faz a menor lógica cartesiana.
- Isso não faz a menor lógica cartesiana!
- Isso não tem a menor lógica cartesiana. Não me prendam, é um erro.
Tentou usar a faca para ameaçar.
- Foram os animais, eles são inteligentes. Foram os animais!
Paulo Borges foi levado ao manicômio, onde vai ficar por muitos anos. Tentaram abafar o caso e garantiram que o festival acontecesse.

Parintins, junho de 2021
O Festival do ano anterior inovou trazendo a presença de bois verdadeiros. Decidiu-se que a partir daquele ano, os animais participariam efetivamente do desfile. Três meses depois, foram proibidos rodeios e vaquejadas em Parintins. As vacas descobriram um capim que as deixava inférteis e improdutivas, propositalmente comiam deste capim e começaram a trabalhar como bois.
Os animais fadados ao abate, antes do matadouro comiam um tipo de folhagem que apodrecia suas carnes. Quatro meses após, não havia mais consumidores de carne em Parintins.  As ovelhas se expunham em umidade excessiva, provocando fungos em sua pele que tornavam sua lã imprópria para uso. Isso obrigou os produtores a sintetizarem tecidos de fontes não animais.

Na delegacia da cidade, cinco cachorros complementavam o quadro de agentes que trabalhavam lado a lado com humanos. A equipe agora era comandada por uma mulher. Juliana Reis, interpretativista[7], delegada titular.
...




Fontes:

DESCARTES, R. Discurso do Método. Coleção Os Pensadores, vol. 1. Nova Cultural, São Paulo, 1987 (orig. 1637).
DiMaggio P. J.; Powell, W.. The iron cage revisited institutional isomorphism and collective rationality in organizational fields. American Sociological Review, 48, 147-60, 1983.
FERNANDES, Ana Rúbia Figueiredo. Festival folclórico: o que muda em Parintins?. Revista de Estudos Amazônicos, número especial, v. 2, n. 2, p. 99-114, 2002.
Hasselblandh, H.; Kallinikos, J. The project of rationalization: a critique and reappraisal of neo-institutionalism in organization studies. Organization Studies, v. 21, n. 4, p. 697-720, 2000.
Machado-da-Silva, C. L. ; Guarido Filho, E. R. ; Rossoni, L. Campos Organizacionais: Seis Diferentes Leituras e a Perspectiva da Estruturação. RAC. Revista de Administração Contemporânea (Impresso), v. 14, p. 109-147, 2010.
Maitlis, S. & Christianson, M. Sensemaking in Organizations: Taking Stock and Moving Forward. Academy of Management Annals, 8 (1), 2014
Meyer J. W. & Rowan, B. Institutional organizations: formal structure as myth and ceremony, American Journal of Sociology, 83, 340-63, 1977
PECI, A. A nova teoria institucional em estudos organizacionais: uma abordagem crítica. Cadernos Ebape, BR, v.4, n.1, p.1-12, 2006.
PESSOA, Marcus. A lenda da rasga mortalha. Disponível em: https://noamazonaseassim.com.br/a-lenda-da-rasga-mortalha/ Acesso em 29/03/2019.
WEBER, M. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 2004. Vol. I (Capítulo I e p. 139-160).
Weick, K. E.; Sutclifee, K. M.; Obsfeld, D. Organizing and the process of sensemaking. Organization Science, v. 16, n.4, p. 409-421, 2005.
WEICK, Karl E. Sensemaking in organization. London: Sage, 1995. (Capítulos 1 a 5, p.1-131)
Williamson, O. E. The new institutional economics: taking stock, looking ahead. Journal of economic literature. vol XXXVIII, p.595-613, set/2000.






[1] Campo com capacidade para 35 mil espectadores. O formato dele assemelha-se com o formato de uma cabeça de boi.
[2] Nas regiões do Norte e Nordeste, a coruja branca é conhecida como “rasga mortalha”, ave de um agouro que, ao passar por cima de alguma casa soltando um ruído semelhante a um “pano sendo rasgado”, sinaliza que algum morador por ali está perto de morrer.
[3] Pensamento que acredita que sensação, percepção e, por conseguinte, a opinião e as experiências da humanidade são guias duvidosos para se explicar algo. Busca um método dedutivo longe da influência do que não se pode explicar.
[4] Expressão utilizada para se referir ao processo onde ação e cognição estão recursivamente ligadas e a partir disso, as pessoas trabalham para entender eventos novos.
[5] Expressão utilizada por Hasselbladh e Kallinikos, para designar o processo contínuo de organização.
[6] Representa o papel do dono da fazenda, dono dos bois. Canta as toadas principais do evento.
[7] Abordagem que considera a proposta de compreensão para os fenômenos sociais, com base na busca de significados constituintes do fenômeno. Na história, uma vitória sobre o estruturalismo positivista de Paulo Borges.

ENGANANDO QUE UM DIA O SERTÃO VAI VIRAR MAR


Poesia de Hellen Taynan
Imagem: O Pescador de Ivan Borges


Weber queria uma coisa diferente
Jogar o positivismo no meio da rua.
Pensou, consigo com a cabeça na lua,
Numa ação ideal para toda gente
De todo racional que está presente,
A ação social vai se manifestar
Seja de valor e fim, para racionalizar,
Seja afeto ou tradição para assim determinar.
Weber para entender poder, quis tirar ele do pote
Não contava que alguns, vão apenas dar um bote
Enganando que um dia o sertão vai virar mar.

Denomina, domina dominação,
Vontade de obedecer e de ficar calado,
Um tipo que requer fé, para ser legitimado
Enquanto o poder vai também por coação.
Espera a foice, o fuzil, o facão,
Os bichos tudo morrendo de sede,
Coronel manda matar deitado na sua rede.
Pela cabeça daquele povo, 300 conto dá,
Conversa com o padre, que ele ajeita de lá
Com medo que a fé do povo no santo,
Botasse o poder da igreja no canto
Enganando que um dia o sertão vai virar mar.

Quando se perde a autoridade,

A justiça vem de onde?
Busca em Deus consolo pra morte
E no diabo alegria adiante.
Sem autoridade legal nem ideal,
O povo recorre ao messias,
Acredita que tudo um dia vai passar
Haverá fartura a quem se sacrificar
Só não queira ser maior que seu dito
Que jura e convence no grito
Enganando que um dia o sertão vai virar mar.

Freud também explica o perigo
De ficar ao deus dará
Se cortar a cabeça do santo,
Quem matou Deus pode te matar.
Sem moral e Estado a disciplinar,
A barbárie toma o pranto
E os espertos se aproveitam
Enganando que um dia o sertão vai virar mar.

Por poder posso encarcerar um, dez ou mil.
Abafar por um tempo alguma opressão
Fugir do legítimo de Weber, a dominação.
Pela palavra também posso
Convencer que aquilo presta
Quem cai no gosto do povo
Tem carisma e encontra brecha
Faz o povo acreditar,
Sem nem se quer questionar.
Usa o espaço que lhe é cedido
E segue também perdido
Enganando que um dia o sertão vai virar mar.

Não sei onde se perdeu essa tal burocracia,
Que pra Weber era o tipo mais puro e racional.
Eu sei é que em nosso tempo, tem tanta tecnologia
Que hoje tem até robô fingindo democracia
Parece que tudo se perdeu e quem manda não conversa
O real é o ideal e Weber não interessa.
As certezas que se tinha, passam a ser contestadas
E tem gente acreditando que a Terra é quadrada.
Tem pastor carimbando passaporte pro inferno...
Se até mesmo a vacina, acreditam que vai matar
Talvez o tal avanço, precise se adaptar
E ainda dizem que há mundo moderno
Enganando que um dia o sertão vai virar mar. FIM!..

sábado, 2 de fevereiro de 2019

SEU TEMPO

O que serão dos sensíveis num mundo de pedras?


Um dia um ser sensível feriu-se numa pedra, ao olhar do lado viu outro sorrindo e sua sensibilidade o levou à profunda mágoa, pois acreditava que ele era o motivo do riso. Por um instante foi tomado de cólera e atirou a primeira pedra ao que sorria. Vendo isso, o outro sensível se sensibilizou e foi buscar justiça. Mas o que foi ferido, de tão sensível que era, caiu em profundo descontentamento. Seus amigos o vendo assim, se sensibilizaram a dor que ele estava sentindo e então não aceitaram ouvir outro lado da história.
Os que contavam a história, se cansaram de repetir, e por sua sensibilidade, cada um calou-se em si mesmo. Os sensíveis que ainda restavam, diante de tanta bagunça, cuidaram em buscar estratégias para se defender de possíveis pedras. Outros sensíveis no entanto, continuavam negando o óbvio e insistiam em ser bons. Esses não conseguiam muitas conquistas. Um amigo era aqui, mas não mais acolá. - Não é possível que exista
alguém tão inocente! - Talvez esteja querendo passar a perna em todos nós. (...) Eram os pensamentos que predominavam.
Os poucos sensíveis tentavam de todo modo alertar o quão bom era viver assim. Frustravam-se. Choravam. Os médicos os receitavam.
Depressão, ansiedade, transtorno daqui e outro dali e a sensibilidade virara doença.
...
Ter sensibilidade exacerbada num mundo de pedras é não sucumbir à realidade. Mas é preciso abandonar a ingenuidade. Como um pensador já dizia, é ter maldade suficiente para perceber o mal e sabedoria o bastante para nunca praticar o mal contra alguém. Pessoas sensíveis - ainda - são essenciais ao mundo.
Estamos cercados de pessoas que nos julgam e nos veem como pessoas fracas, débeis, intensas, desnecessárias... O mundo criou e disseminou que nós temos a obrigação de ser feliz e de mostrar através de nossas fotos maravilhosas como estamos saudáveis, alegres, em lugares bacanas, com gente bonita. 
Traços de sensibilidade são evitados. Beleza, coragem, estilos são incentivado. Exigidos. E isso é maior crueldade desses tempos, pois cada um tem seu tempo, seus medos, traumas e sabe o que passa dentro de si. 
Todos nós enfrentamos alguma batalha, porém só os fortes assumem suas fraquezas e buscam ajuda!
Você está no caminho certo. Você está em seu tempo. 
A cura para todo mal é estar nele sabendo que não faz parte dele. É reconhecer e aceitar nossas limitações sabendo até onde podemos ir e deixar q outros cheguem até nós.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

NOVO ANO VELHO


Chegamos ao fim de um ano e talvez pela
primeira vez eu não consiga vislumbrar coisas positivas para o seguinte. Eu poderia, por mim, sentir-me tranquila. Afinal, já carimbei meu futuro pelos próximos anos fazendo o que mais gosto e dá sentido a minha vida. Antes fosse egoísta e conseguisse não pensar nos dias cinzentos para tantos. Nas nuvens pesadas e ameaças de tempestades para todos aqueles que não tiveram os privilégios que tive. Pensasse apenas em mim, sairia deste barco antes q ele naufragasse. Antes que a sede por dinheiro, sob o pretexto de matar a fome, liberasse, sem controle, os agrotóxicos para os pratos. Antes que o avanço da exploração dos recursos minerais, tomasse como câncer o pulmão do planeta, a Amazônia. Antes do genocídio dos índios, antes da extinção da cultura, antes da perseguição política aos que ousam ser oposição. Antes. Deixo aqui meu desabafo de um ano novo com gosto de velho. Um saudosismo do que nunca vivi além das leituras e se vivesse, não teria saudade... Um sentimento que de tão impróprio, é retido numa mordaça. Parafraseando Nietzsche, estamos todos caindo no mesmo abismo. A diferença é que uns gritam, outros dançam. Como diria Raul, "é pena não ser burro, não sofreria tanto". Vai ver q estivesse até dançando agora...
No mais, feliz 1964 para todo mundo.