quinta-feira, 20 de julho de 2017

FRIO PÓS-MODERNO

Cada vez mais me inquieta o frio. Inquieta-me, contudo, não o frio que o vento do inverno provoca ao tocar os rostos e mais aquele que ao tocar os rostos congela os corações. A frieza das redes que não sustentam ninguém; que favorece amizade fastfood para depois se tornar lixo descartado na faxina que os exclui.
Sem viés otimista, mas em constatação tem-se a nata da modernidade líquida: ela escorre!
Escorre e passa.
Não passa para os que ainda estão, não passa para aqueles que ainda hão de vir - depende de nós. Não passa como uma época que finda ou moda que é substituída, mas passa. Passado quase anacrônico, mais passageiro que temporal. Mas passa.
Antes de passar, é possível que deixe a gente menos gente, tal qual são as coisas mais gente que a gente. Antes de passar, é provável que amizades terminem em faxinas, relacionamentos sejam discutidos pelo whatsapp e casamentos desfeitos via skype.
De tudo isso quero me abster. Desejo estar muito longe de estar despedaçada por todo mundo e perto, inteira, de um único lugar. Aquietar a alma, dançar a vida, embriagar-me de todos os sorrisos e olhares que cruzarem o meu. Conhecer pessoas que nunca conheci e reconhecer aqueles que talvez um dia, em faxina, eu tenha limpado de minha (vida) lista.
Sim, a pós-modernidade escorre. E corre.
Escorre e lava a alma; escorre e leva o que passou; e passa como passageiro que tomou o trem e acredita que agora está no rumo certo.
Escorre e corre como as águas de um rio que nunca voltarão a afogar quem encontrou a ponte para o outro lado. O lado onde o frio corta a pele, mas não congela o coração.

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