sábado, 25 de outubro de 2014

Votar no PT: POR QUE NÃO DEVO? PORQUE NÃO DEVO*

Por: Luiz Sebastião**

Em texto anterior, comentei os supostos "fortes argumentos" de alguns que entraram em minhas postagens "anti-PT" no Facebook e questionaram minha posição política. Nada contra o "questionar", mas esses tais argumentos me deixaram confuso.
Diziam que eu devo votar em Dilma porque devo a ela meu emprego como professor de uma universidade federal, que a UFPE deve a ela o campus de Caruaru, que o povo deve a ela o bolsa família e por aí vai. Corro para dar uma olhada nas minhas finanças e ao ver os números em vermelho do extrato do banco fico aliviado por perceber que algo de errado deve ter nessa afirmação, porque minha única dívida é com o limite do cheque especial, que aliás aumenta sempre mais devido aos juros da inflação que não existe no horário político do PT, mas que, misteriosamente aparece no tal extrato.
Recomposto do susto, após respirar lenta e profundamente como me ensinaram na yoga, percebo que talvez estivessem querendo falar de "dever" no sentido de "dívida de gratidão". Mas, longe de deixar tudo às claras, foi aí que minha confusão aumentou. Pois vejamos...
Nasci no primeiro dia do último mês de 1976, ou seja, em plena ditadura. O AI5 ainda estava em vigor, mas estava ficando fora de moda. O presidente à época, o Ernesto Geisel , havia assumido quase três anos antes prometendo uma abertura política lenta, gradual e segura, mas sem a menor intenção de interromper a continuidade do regime militar iniciado em 1964. A gestão de Geisel coincidiu com o declínio do "milagre econômico", mas toda a infraestrutura médica que havia sido construída estava a meu serviço quando nasci. Como até pelo menos uns 10 anos de idade eu nunca havia ido a um médico particular, quem deu conta de realizar todos (todos mesmo... minha mãe era muito cuidadosa) os exames pré-natal, meu parto, a aplicação de todas as vacinas e as consultas pediátricas e odontológicas, foi mesmo o sistema público de saúde. Assim, pensei eu, para ser justo e pagar essa dívida de gratidão, eu precisaria agora torcer para que algum tipo de revolução se instalasse no país, trouxesse de volta os militares (moderados), barrando as eleições e acalmando o país de forma lenta, gradual e segura.
Foi quando eu me toquei, fazendo as contas nos dedinhos, que o período do meu jardim da infância até o final do que chamávamos de primário (hoje, quinto ano do ensino básico), foi todo passado na Escolinha da Mônica, uma instituição privada, onde só pude estudar porque recebi uma bolsa dada pelo governo do presidente João Figueiredo, já que meus pais, muito pobres, mal tinham dinheiro para fazer a feira. João Figueiredo havia assumido claramente com o propósito de ser o último presidente do regime militar e concedeu ampla anistia aos que haviam tido seus direitos cassados pelos "AIs" da vida. Nessa hora eu percebi que fui injusto ao desejar que se instituísse um regime militar mais conservador, quando eu devia tanto, toda a minha educação básica, a um regime militar, digamos, um pouco mais progressista, mantidas, evidentemente, as devidas proporções. A solução então, para pagar a dívida, seria desejar uma revolução com alguém de mente mais aberta nas Forças Armadas.
Quando enfim, eu parecia satisfeito comigo mesmo, fazendo novas contas de dedinhos, percebi que meu ginásio (hoje, do sexto ao nono ano) foi todo cursado no período de governo do Presidente José Sarney, vice imposto pelo congresso ao primeiro presidente civil eleito após o regime militar, Tancredo Neves, avô de Aécio e que ,após misteriosamente adoecer há poucos dias de sua posse, morreu e deixou a vaga para o famoso bigodudo das bandas do Maranhão. Época de preços congelados e de desabastecimento nos supermercados. Passei a estudar em outro colégio do bairro onde morava, mas agora o melhor da região, que era, obviamente, particular, a Escola Nossa Senhora da Conceição. Como consegui estudar? Tenho eterna dívida de gratidão para com o ilustríssimo senhor José Sarney, pois foi uma bolsa concedida em seu governo que me permitiu chegar ao Ensino Médio com um bom leque de conhecimentos. Percebi que devo torcer para que, ganhe Dilma ou Aécio, sem a interferência dos militares, eles fossem depostos juntos com seus vices (ou simplesmente morressem) e morrendo também o presidente da câmara dos deputados, com um pouco de sorte e negociação tendo o Sarney como presidente do Senado, ele estaria de volta e eu ficaria feliz por quitar, com minha fatal "torcida vudú", minha dívida de gratidão para com tão "ilustre" político.
Mas aí é que a confusão aumentou ainda mais, pois meu segundo grau, hoje, "ensino médio", foi cursado na época de Fernando Collor, o primeiro presidente civil eleito pelo povo, o hoje "melhor amigo", junto com Sarney e Maluf, de Lula e Dilma. Apesar de ter passado a mão na poupança (sem duplo sentido) dos brasileiros e de ter sido forçado a renunciar por desvio de míseros 19 milhões (míseros sim, se considerarmos os parâmetros bilionários do "petrolão") , Collor permitiu que eu estudasse em uma boa escola pública, o Ginásio Pernambucano, me preparando assim para ser um dos poucos da minha turma a passar em um vestibular. Minha dívida de gratidão passou a ser "collorida" e percebi que deveria ter mudado meu título de eleitor para a terra da família de meu pai, nas Alagoas, para poder ter a honra de, com meu voto, agradecer por tudo que Collor fez de bom por minha educação.
Quando as coisas pareciam se encaminhar para uma resolução, me lembrei que toda a minha graduação e minha primeira incursão pelo mestrado, se deu sob a égide do governo FHC. Quase se faz desnecessário dizer que, por estudar em uma instituição de ensino superior pública, a UFPE, todo a minha graduação foi gratuita e de qualidade, pois tínhamos excelentes professores. Nesse período só pude me manter na universidade por ter recebido uma bolsa de manutenção acadêmica onde prestei serviços à coordenação do curso de Administração e à chefia do Departamento de Ciências Administrativas, durante mais de dois anos. Por igual período também recebi uma bolsa da capes durante o mestrado, apesar de não ter conseguido cumprir alguns prazos por razões particulares, que me fizeram ser desligado do programa à época. Ou seja, minha consciência pesou muito, porque, mesmo os motivos que me fizeram não concluir o mestrado tendo sido por razões acima de minhas forças, ficou ainda aquela sensação de que dinheiro público foi investido em mim e eu não concluí o curso no prazo. O que fazer então para pagar mais essa dívida de gratidão, agora para com FHC? Sorri, porque pareceu-me muito claro que votar no candidato do partido dele, o Aécio, seria uma forma de pagar essa dívida.
Mas eu não desisti do mestrado, e depois de um tempo afastado, consegui retornar ao programa de pós-graduação em Administração da UFPE e, mesmo sem receber bolsa, tive novamente acesso ao ensino gratuito e de qualidade proporcionado pela gestão do então presidente e xará, Luiz Inácio Lula da Silva. Inclusive sua política de interiorização das universidades me permitiu, no final de sua gestão, em 2009, entrar via aprovação em concurso público, após concorrer com outros 31 candidatos por uma vaga de professor assistente, como docente da UFPE, no seu campus de Caruaru, campus este que, embora à época não tivesse sido concluída nem a primeira das três etapas de sua construção, foi inaugurado com pompa em plena campanha eleitoral para a eleição de Dilma. Pensando assim, se recorri a Aécio para agradecer pela gestão de FHC, foi fácil perceber que devo votar em Dilma para agradecer todo o bem que o governo Lula me fez. Assim teria minha dívida de gratidão paga.
Como mencionado, foi no apagar das luzes do governo Lula que eu entrei na Universidade. Logo na sequência veio a atual presidente e candidata à reeleição, Sra. Dilma Rousseff. Foi na sua gestão que recebi a maior parte dos meus provimentos de professor, apesar de ter ficado três anos sem ajustes e só após uma greve de uns 100 dias, termos conseguido uma ninharia de aumento, parcelada em três anos onde, se a inflação tivesse ficado na meta prevista não reporia nem as perdas do período. Para completar, a ilustre presidente e seu ministro da educação à época, Aluizio Mercadante, escamoteando números, fizeram parecer à sociedade que éramos um bando de vagabundos por continuar em uma greve quando tínhamos recebido, pasmem, 75% de aumento. Se alguém precisar, eu explico direitinho qual o truque da mágica, nada engenhoso, mas que serve muito bem para enganar muitos, haja visto o imenso apoio recebido pela ilustre presidente em todos os corredores da Universidade, justo pela dívida de gratidão que devemos ter para com ela que paga nossos salários.
Foi aí que eu entendi por quê me incomoda tanto o argumento de que eu "tenho" que votar no PT por dívida de gratidão. Na verdade, desde Geisel à Dilma, eles é que tinham uma obrigação comigo e com a sociedade e não o inverso. Cuidar de saúde, moradia, educação e tantas outras prioridades, não é um favor, é uma obrigação. Eu trabalho duro, tento dar o melhor de mim para meus alunos. Cinco meses por ano eu trabalho só para pagar impostos, que devem ser investidos em todas essas prioridades e repassadas aos estados e municípios já que é o Governo Federal quem mais arrecada.
Diante disso me pergunto, com um "por que" separado e sem acento: "por que não devo votar no PT?"
E respondo com um "porque" junto e com acento:" porque não devo!"
Não devo nada a Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor, FHC, Lula ou Dilma.
Eu trabalho de forma honesta e dedicada, não me envolvo em politicagens nem no meu núcleo de trabalho, não suborno guarda de trânsito, pago meus impostos, não aceito suborno e nem propina, e aí chega uma pessoa que não sabe nada de minha história e, possivelmente nem de História, e me diz que eu "DEVO" votar no PT... sinceramente...!
Citando a neo-filósofa Valeska Poposuda: "beijinho no ombro!".


*Perceba que é mais uma crítica abalizada sobre política sem apologia a A ou B, apenas escalrecendo que não existe dívida do povo com nenhum partido.
**Luiz Sebastião é professor da Universidade Federal de Pernambuco no Campus do Agreste em Caruaru-PE.

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