terça-feira, 17 de junho de 2014

Como se tornar um idiota


Você hoje terá a oportunidade de aprender comigo a ser um completo idiota e arriscar a sua vida por conta disso. A boa lição é que você vai encontrar uma oportunidade ainda mais rica de reconhecer onde precisa mudar, se precisa mudar e verá que ainda há tempo de mudar. Sempre há.
A história é a seguinte: eu sempre fui muito perfeccionista e isso me atrapalhou (e atrapalha) demais. Primeiramente porque durante muito tempo eu subestimei as pessoas e sempre acreditei que só eu era capaz de fazer algo bem-feito. Imaginem o problema que isso causa nos relacionamentos! Pois bem, por isso, nunca tive grupo de amigos e meus "amigos" eram meus professores mesmo.
Dotada de um temperamento muito forte e uma necessidade extrema de perfeição eu decidi que iria saber sobre tudo o que eu precisava pra viver para nunca precisar confiar em outra pessoa cegamente, de modo que o que ela dissesse fosse determinante em minha vida. Enfim, uma idiota!
Assim, eu estudei medicina, como se fosse médica, para poder debater com propriedade nos diagnósticos e nos tratamentos. Eu estudei direito como se fosse advogada, para estar bem munida de argumentos que justificasse meus próprios direitos. Estudei psicanálise, mas nesse caso eu me formei mesmo, e isso foi mais recentemente (há menos de 2 anos), porque a necessidade de entender o comportamento dos outros era muito grande para compreender porque em dados momentos as pessoas agem como agem.
Eu desacreditava muito do curso que me formei: administração. Eu discutia sobre a necessidade de um curso, a meu ver, tão óbvio. Mais ainda: eu não me conformava em estudar Administração, quando eu sabia que poderia fazer coisas muito mais difíceis. Enfim, uma idiota!
Nesse caminho, moldado por passos de uma idiota e acreditando que eu poderia ser bem mais do que eu podia, eu simplesmente adoeci... Vivia em depressão. Não a depressão que afeta a massa que se vê em uma situação difícil e desaba por um momento e depois se ergue como se nada tivesse acontecido. Eu tive depressão daquelas que têm um CID. Depois síndrome do pânico, com inúmeros ataques de ansiedade, mania de perseguição, comportamentos compulsivos... Comia DEMAIS, gastava DEMAIS, falava DEMAIS, era arrogante DEMAIS, era odiada DEMAIS, era idiota DEMAIS.
Quando a história ficou realmente séria, foi há 5 anos, eu estava concluindo a universidade e eu fui obrigada a parar. Minha mente travou e decidiu ñ funcionar mais para nada! Eu fiquei numa cama, prostrada, dopada... Eu tomava remédios para NÃO pensar, porque o meu pensamento era muito acelerado, inconcluso, confuso, perturbado... Diante dessa situação eu achava que minha vida tinha acabado e que eu nunca mais conseguiria fazer nada de útil, produzir nada etc etc etc.
Foi nesse tempo que eu cheguei a pesar 105kg. Uma combinação maldita de comida e medicamentos antidepressivos, antipsicóticos, estabilizador de humor, ansiolítico... Eu ingeria 11 comprimidos por dia.
Para completar a situação, eu me mudei de estado. Mudanças sempre interferem na vida das pessoas e comigo não foi diferente. Eu sempre fui muito apegada à minha família, à minha cidade e apesar de ser extremamente comunicativa eu era muito antisocial. Não procurava ninguém e desconfiava de quem me procurasse. Levei 2 anos para me adaptar à nova cidade, mas eu ainda me sentia inútil. Na verdade eu era mesmo. Eu não produzia nada e me sentia um estorvo na vida das pessoas.
Com os problemas de saúde se agravando por conta da obesidade, fui recomendada a fazer a bariátrica e digo, sem sombra de dúvidas que essa cirurgia foi um marco em minha vida. Depois dela tudo começou a mudar, eu perdi peso e ganhei uma nova visão do mundo: eu simplesmente decidi viver. Tive um impulso de fazer as coisas diferente e comecei a fazer um curso aqui, outro acolá e percebi que eu ainda era capaz de produzir.
O que mais me incomodava era depender de medicação forte para frear o pensamento... E conforme o tempo foi passando, o médico foi diminuindo essa medicação de modo que há 3 meses estou sem tomar nada. Você deve estar pensando: legal, então ela deixou de ser idiota!
Quase.
O que acontece é que é como se eu encarasse cada conquista, um desafio que eu tenho que vencer. Mas isso é normal, só que não é só isso! Eu não enxergo um limite em mim e acumulo diversas atividades para provar a mim mesma que eu dou conta. Eu não consigo dizer não. Eu não consigo abrir mão de nada. São muitas atividades e só isso já está errado, mas além de ser muita atividade, eu quero PERFEIÇÃO em todas elas e todo mundo sabe (eu inclusive) que perfeição não existe...

O resultado disso tudo é que minha mente apresentou por estes dias essa 'travada' e acendeu o sinal de alerta em mim porque eu não quero passar pelo que eu passei novamente... Aí sim, é quando eu percebo que estou deixando de ser idiota: eu percebo que agora é hora de respirar e abrir mão de algumas coisas, inclusive, porque não, abrir mão das madrugadas que passo lendo artigos e mais artigos e dormir mais. Mais do que isso, eu começo a deixar de ser idiota quando decido abrir a cabeça e entender que eu NUNCA vou ser perfeita e que eu preciso de ajuda. Talvez até da sua ajuda. Obrigada.

Nenhum comentário: