sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Para onde vão os mortos?

ENTRE A MORTE E A RESSURREIÇÃO (O ESTADO INTERMEDIÁRIO)


Tendo conhecimento de que o ser humano é formado de duas partes: material e espiritual, e que esta parte espiritual tem existência real, é inevitável que esta pergunta apareça: o que acontece após a morte?
Testemunhas de Jeová e Adventistas do 7° Dia têm a resposta na ponta da língua: o ser humano fica dormindo inconsciente na sepultura até a volta de Cristo (Adventistas), ou a Armagedom (Testemunhas de Jeová). Os Protestantes dizem que estas pessoas vão para um lugar preparado por Deus, e ficam conscientes esperando sua volta. Olhemos o que a Bíblia diz sobre o assunto pra ver quem tem razão.
a) O Antigo Testamento- O AT tem algo a nos dizer sobre a situação após a morte? Sim. Smith escreve que no entendimento dos autores do AT; o ser humano quando morre vai para o Sheol.
Apesar de o Sheol não ser um lugar atraente no Antigo Testamento, pelo menos ele transmitia a idéia de que a morte não era o fim absoluto da existência. Os mortos continuavam existindo como rephâim “sombras” (Pv. 2: 18; 9: 18; 21: 16; Is. 14). [1]
Ladd é de parecer semelhante quando escreve:
No Velho Testamento, a existência humana não termina com a morte. Pelo contrário, o homem continua a existir no mundo inferior. O Velho Testamento não fala da alma, ou espírito, do homem descendo ao Sheol; os homens continuavam a existir como sombras (rephaim). Os rephaim são continuações fracas e em forma de sombras dos seres vivos que perderam a sua vitalidade e vigor”. Eles não são “almas extintas, mas suas vidas têm pouca substância”. O Sheol, onde as sombras encontram-se reunidas, é descrito como um lugar inferior (Sl. 86:13; Prov. 15:24; Ez. 26:20), uma região de trevas (Jó 10:22), um terra de silêncio (Sal. 88: 12; (4: 17; 115: 17). Neste lugar os mortos, que estão reunidos em tribos (Ez. 32: 17-32), recebem os que morrem (Is. 14: 9, 10). O Sheol não é tanto um lugar, e, sim, o estado dos mortos. Não é considerado como uma não-existência, mas também não é vida, pois a vida somente pode ser desfrutada na presença de Deus (Sal. 16: 10, 11). O Sheol é o modo do Velho Testamento de asseverar que a morte não significa o fim da existência humana.[2]
Existe um texto que merece muita atenção sobre este assunto:
Então, lançada por terra, do chão falarás, e do pó sairá afogada a tua fala; subirá da terra a tua voz como a de um fantasma, como um cochicho a tua fala desde o pó (Is. 29:4, grifo meu).
Usando uma linguagem figurada, onde Ariel significa Jerusalém, o autor diz que depois de abatida ela ainda falará de “debaixo da terra”, desde o pó, e esta expressão “desde o pó”, é uma referência a morte (cf. Is. 26:19). Assim, para este autor que expressa a mentalidade do AT, o lugar para onde os mortos iam não era de não-existência completa, de lá algo podia se expressar.
b) O Novo Testamento- Os evangelhos já nos mostram a crença em que o ser humano tem uma parte que sobrevive a morte, pois se não fosse assim textos como este não fariam sentido:
b.1) “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt. 10:28, grifo meu).
Cristo aqui coloca claramente que se pode matar o corpo e não matar a alma. Se quando uma pessoa morresse, a alma morresse também, estas palavras não teriam cabimento.
b.2) No monte da transfiguração, quando Moisés e Elias apareceram, é evidente que vieram de algum lugar, portanto, existe um lugar para onde quem morre salvo por Deus, como Moisés, vai (Mt. 17: 1-7).
E a Bíblia realmente fala que existe um lugar para onde os espíritos maus, ou bons, vão após a morte, e onde alguns anjos maus, que também são espíritos (Hb. 1: 13-14), estão aprisionados (1Pd. 3:19-20; 2Pd. 2: 4-5; Jd. 5-6).
b.3) Quero ainda dar especial atenção a dois textos do NT: 2Co. 5:1-10; Fp. 1: 23-24). Falando sobre 2Co. 5: 1-10, Donald Guthrie escreve:
No presente contexto, as palavras “habitar com o Senhor” devem ter a força de uma experiência imediatamente seguinte a experiência de “deixar o corpo”. Portanto, não é válido nenhum conceito de estado intermediário que não forneça também uma consciência da presença do Senhor.[3]
E sobre Fp. 1:23-24 ele acrescenta: “O conceito (de Paulo) era de um estado existencial em que ele estava plenamente consciente da presença do Senhor”[4]
Paulo não achava melhor ir para debaixo da terra e ficar esperando a ressurreição, mas ir para junto de Deus onde estão os espíritos dos justos glorificados (Hb. 12: 23-24). Assim, o espírito na bíblia não é algo que se desvanece, um hálito ou vento qualquer. Quando partem daqui as almas ou espíritos são recebidos por Deus para aguardar o julgamento final (Dn. 12: 2). Calvino escreve:
...demo-nos por satisfeitos e não passemos os limites que Deus colocou, a saber, que as almas dos fiéis, ao concluir a sua luta nesta vida mortal, vão a um descanso bem-aventurado, onde com alegria esperam gozar da glória que se lhe tem prometido; e que desta maneira, tudo fica suspenso até que Jesus Cristo apareça como Redentor.[5]
E Agostinho: “No intervalo entre a deposição e a recepção do corpo, as almas ou são atormentadas ou descansam, de acordo com o que fizeram durante a morada no corpo”.[6] Eu concordo com esses dois sábios.

NOTAS
[1] Teologia do Antigo Testamento, p. 366.
[2] Teologia do Novo Testamento, pp. 181-182. Veja também: SMITH, Ralph, pp. 347-358; MINISSALE, A. Sirácida: as Raízes na Tradição (São Paulo: Paulinas, 1993), p. 55.
[3] PIERRAT, Alan B (ed). Imortalidade (São Paulo: Vida Nova, 1992), p. 203.
[4] Idem
[5] Institutas, III. 25.6.
[6] A Predestinação dos Santos (XII, 24).


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