sábado, 15 de agosto de 2009

TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE - TDAH

"A Eterna Insatisfação"

Pessoas com TDAH geralmente não gostam de como se sentem em seu íntimo. É difícil descrever exatamente o que eles não gostam em como se sentem, exceto dizer que se sentem entediados, desconectados, letárgicos, ou perdidos.

O que começa como uma leve sensação desagradável pode, em segundos, se transformar em uma verdadeira crise. Eles sentem que precisam fazer algo pra mudar como se sentem. Em momentos assim, eles estão “funcionando” em um nível além do controle racional. É nesses momentos que eles podem tomar decisões impulsivas e auto-destrutivas. Eles começam uma discussão ou uma briga. Eles explodem em raiva. Eles criam uma crise do nada. O que eles não entendem – e a maior parte do mundo certamente não entende – é que esses atos inconseqüentes vêm de uma necessidade biológica de alterar seu estado interno. Na dor, eles são compelidos a buscar alívio imediato. Ajuda se eles puderem desenvolver um conjunto de maneiras saudáveis e adaptáveis de mudar seu estado interno.

Tradicionalmente, as pessoas olham para esse problema através da lente da moralidade, uma lente que já foi discutida previamente. Pessoas que agem das maneiras acima citadas geralmente recebem um julgamento, não um diagnostico. Na melhor das hipóteses, as pessoas dizem que eles não têm suas prioridades bem estabelecidas. Na pior, são condenadas.

Será que todas essas pessoas não compartilham um peculiar problema de química cerebral? Especificamente, poderia ser que, baseadas em um padrão hereditário de neurotransmissores, receptores e moléculas de transporte, essas pessoas não fossem capazes de encontrar prazer em coisas corriqueiras como outras pessoas são? Não será que, por causa de suas características genéticas, elas precisem buscar recursos extraordinários para se sentirem completamente vivas?

Há cerca de uma década atrás, Kenneth Blum e outros pesquisadores sugeriram a existência de uma condição que eles nomearam Síndrome de Deficiência de Recompensa, ou SDR. Pessoas que sofriam de SDR eram incapazes de sentir prazer tão facilmente quanto os outros. O gene envolvido no modelo deles (e atualmente outros genes foram incluídos) é o alelo A1 do receptor da dopamina D2. Pessoas que tem esse gene diferente são menos capazes de obter os benefícios prazerosos da dopamina.

Dopamina é um dos mediadores químicos mais importantes do prazer. Toda atividade que lhe faz liberar dopamina tende a lhe fazer se sentir bem. Exercícios fazem isso, fazer amor também, e todo tipo de atividade criativa em que sua imaginação está totalmente envolvida. Também beber, apostar, correr riscos extremos, tomar sorvete e outros carboidratos, tomar várias drogas, e fumar. Em outras palavras, como eu disse antes, existem maneiras boas e ruins de você liberar a dopamina.

Pessoas com SDR são mais susceptíveis a se envolver excessivamente com as boas e as ruins, porque as maneiras moderadas não produzem tanto prazer quanto produzem nos outros. Um beijo e um abraço de bom dia ao saírem de casa não fazem por eles o que faz para outros. Eles precisam fazer mais do que os outros pra liberar a dopamina. E assim o fazem. Eles podem se exercitar mais que os outros, fazer amor mais vezes, ou se engajar em atividades criativas. E também podem beber mais do que é saudável pra eles, ou apostar mais, ou comer mais, ou correr mais riscos, tudo porque eles precisam fazer mais para que consigam se sentir bem como os outros que conseguem com menos.

Esse modelo simplifica bastante o circuito cerebral ligado ao prazer. Muito mais acontece para criar as sensações de alegria, bem-estar, satisfação ou estase do que uma simples liberação de dopamina. O que é importante aqui não é a exata anatomia ou os caminhos bioquímicos envolvidos – nós ainda temos muitas décadas de pesquisa pela frente – mas o fato é que eles diferem de pessoa pra pessoa baseados na variabilidade genética.

Em outras palavras, as pessoas diferem em sua capacidade para sentir prazer frente aos mesmos estímulos. Algumas pessoas sentem prazer mais facilmente do que outras. E como você encontra prazer na vida determina bastante seu sucesso e sua saúde. Se você tem uma determinada configuração genética, você pode ser predisposto a desenvolver vícios, ou quase-vícios, não porque você é uma má pessoa, mas porque suas conexões neurológicas não o suprem com prazer em coisas corriqueiras como as de outras pessoas.

Essa diferença genética geralmente aparece em pessoas com TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade/impulsividade). Essa é uma das razões porque os vícios são tão comuns em pessoas com TDAH. Mas também aparece frequentemente em pessoas altamente criativas em todas as áreas. Há uma ligação interessante entre a facilidade para adquirir vícios e a criatividade.

Eu estive ligado a pessoas da área literária minha vida inteira. Meus heróis durante a adolescência foram Dostoyevsky e Shakespeare. Eu me dediquei bastante à língua inglesa (o autor desse texto é norte-americano) na faculdade. Eu sempre gostei de escrever, muitos dos meus amigos mais próximos são escritores, editores, agentes, colunistas, ou outros trabalhadores nessa área. Sempre me intriguei com uma coisa que todos na área literária tem em comum. Eles tendem a ser altamente criativos, sagazes, irônicos, um tanto cínicos, e um tanto quanto deprimidos. Eles tendem a ingerir muito álcool, ou estão se recuperando de uma ressaca. Também tendem a nutrir grandes sonhos, mas com o passar dos anos perdem a crença na capacidade de realizarem esses sonhos. E ainda são persistentes, trabalhando duro mesmo quando perdem a esperança de terem lucro com seus trabalhos.

Também compartilham outras características. Eles têm olhos e ouvidos extraordinários para perceber o que é genuíno, verdadeiro. Eles pegam mínimos detalhes – um homem arrumando a meia enquanto fala, ou uma mulher lambendo os lábios antes de fazer uma crítica – que outros não percebem. Eles gostam de saber exatamente o que aconteceu, adoram fofocas. Eles abominam hipocrisia e a percebem em um instante. Eles amam honestidade, e anseiam por uma conversa verdadeiramente sincera a cada dia.

Como psiquiatra, eu fui levado a olhar esse tipo literário através da genética. Eu acredito que eles herdaram os genes que predispõem a SDR (síndrome de deficiência de recompensa), como também os genes que levam a destreza verbal, ao alto poder de observação, a um senso irônico altamente desenvolvido e a um toque de depressão. Devido à SDR, eles não encontram prazer na vida corriqueira. Então buscam recursos extraordinários. Por exemplo, eles escrevem. Eles se submetem a essa severa disciplina para tentar melhorar a vida criando ordem, e até beleza, do caos. É um esforço extraordinário para conseguir uma simples descarga de dopaminas, endorfinas e alguns outros mediadores químicos do prazer. Eles conseguem uma suave sensação de prazer através de outras maneiras ligadas às “palavras”, como em uma conversa mais sagaz ou lendo uma parte de um texto que adoram.

Mas eles também se envolvem com bebidas e outras drogas em seus esforços para melhorar a vida cotidiana. Como Ogden Nash, um dos grandes exemplos desse tipo de personalidade, disse: “O doce é muito bom, mas o licor é mais rápido”. Ogden Nash não sabia que ambos doces e licores estimulam a liberação de dopamina.
Eu vou além do que aprendi com meus amigos literários para incluir todas as pessoas criativas. Eu os chamo de sonhadores. Qualquer que sejam os genes que predisponham à criatividade e a ser um sonhador, estes mesmos genes frequentemente aparecem em pessoas com dificuldade em encontrar prazer no comum – uma condição que chamamos SDR.

Agora adicione TDAH ao quadro. O TDAH é abundante entre pessoas com ambos os genes, dos sonhadores e dos SDR’s (as pessoas com SDR são apelidadas de SDR’s). É tão comum que um título que eu cheguei a considerar para esse livro foi Beautiful Dreamers: The Story of ADD (algo como Belos Sonhadores: A história do TDAH). Os sonhadores que tem SDR não incluem todos com TDAH, mas essa categoria constitui, sim, um interessante tipo de TDAH.

Deixe-me explicar melhor como essa “coceira” que está no coração desse tipo de TDAH deriva tanto dos genes dos sonhadores como dos genes dos SDR’s.

Primeiramente, quando você não consegue encontrar prazer facilmente como os outros, isso cria um incômodo dentro de você. Você quer encontrar satisfação, mas não consegue. Então você busca recursos de maneiras bem alternativas. Algumas são saudáveis e úteis, outras são impróprias e prejudiciais.

Segundo, se você é criativo por natureza, você vive com um outro incômodo. Você está sempre procurando novas maneiras de expressar sua criatividade: novos temas para livros se você é um escritor, novas melodias se é um músico, novas receitas se é um cozinheiro, novos roteiros se é um comediante, novas idéias se é um poeta, e assim vai, dependendo do que você faz. Quando o primeiro sinal de uma nova idéia rompe em sua consciência ele causa excitação, mas também um estranho incômodo. Ele demanda atenção já que compete com suas outras idéias para se desenvolver e se expressar.

Essas duas forças se combinam para criar uma sensação que anseia por resolução. Quando então você adiciona a essa combinação imprevisível os genes do TDAH, que reduz tanto o controle de impulsos como também a habilidade de filtrar novos estímulos, você pode entender porque o homem no começo do capítulo sente o desejo, do nada, de jogar sua bebida no rosto da pessoa com quem está conversando; ou a mulher precisa mesmo flertar pra se sentir viva. É tudo uma questão de tentar – de certo modo – coçar uma remota, mas potente coceira impossível de ignorar.

Quando você sentir esse incômodo começando – e isso pode acontecer centenas de vezes no dia – tome cuidado! Nesses momentos, você pode acabar escolhendo uma de duas saídas perigosas. Você pode começar a se remoer num estado depressivo. Isso geralmente dá início a atividades compulsivas e vícios, como sexo, drogas ou comportamento de risco.

Ou pode guinar para a ação. Pode de fato jogar a bebida. Ou tomar uma decisão que você sabe que não deveria. Ou pode ir pra cama com alguém que você na verdade não gostaria.
Nenhuma dessas duas saídas termina bem.

A melhor maneira de se livrar desse incômodo é se engajar em alguma atividade criativa. Brinque. Leve a pessoa com que você está conversando a uma conversa diferente. Talvez conte a ela que você acabou de ter a idéia de jogar a bebida no rosto dela. Diga isso de uma maneira não ofensiva, claro, mas não suprima sua necessidade de ser verdadeiro. Isso só faz a coceira aumentar.

Ligue-se ao desconforto que está sentindo – à coceira – e tente deixar que ela lhe guie a um ponto onde você pode transformá-la – “coçá-la” – através de atividades criativas. Criatividade é seu dom. Use-o.

Deixe que o desconforto o guie, sentindo ele ao invés de tentar encobri-lo com alguma outra coisa. A maioria dos trabalhos criativos começa com um incômodo. Deixe o incômodo te guiar à descoberta da escultura escondida na pedra, ou à receita oculta entre os ingredientes, ou à conversa oculta entre duas pessoas em um coquetel.

Esse princípio faz sentido pra todo mundo, mas é especialmente importante para as pessoas com TDAH porque nelas o incômodo é muito forte, e suas habilidades de autocontrole podem ser bastante limitadas.

Elas, aliás, nós precisamos planejar, construir toda uma estrutura e desenvolver hábitos. No topo da lista das prioridades para nós adultos com TDAH está casar com a pessoa certa e encontrar o emprego certo. Nos colocar em situações onde nossa criatividade seja valorizada e possa se expressar. Evitar situações que possam nos tentar aos vícios e dependências. Ficar longe de pessoas que incutem medos com depreciações e críticas destrutivas.

E, acima de tudo, cultivar conexões com coisas que façam emergir o que há de melhor na gente. Cultivar atividades para extravasar nossa energia criativa – com pessoas, atividades, peças musicais ou períodos de meditação – que estejam sempre disponíveis para nós, para que assim que sintamos a “coceira”, tenhamos alternativas saudáveis para os comportamentos desastrosos que podem arruinar nossas vidas.

Quando uso a palavra conexão ou atividades para extravasar a energia criativa me refiro a um método para que você possa transformar o incômodo da “coceira” na satisfação de uma boa “coçada”. Eu não estou falando que você tem que escrever um poema ou criar um trabalho artístico cada vez que você se sentir incomodado – apesar de que a maioria dos poemas e trabalhos artísticos foi, sim, realizada como reação a um incômodo desse tipo.

Eu quero dizer, simplesmente, que quando você sentir a “coceira” você deve tentar lidar com o incômodo, ao invés de reprimi-lo, e deixar ele te guiar através do labirinto. O labirinto pode ser um bate-papo que começa porque você está entediado (certamente um precursor da coceira!). Ao invés de beber algo pra aliviar o tédio, converse atentamente com alguma pessoa. Você permite que o processo criativo lhe guie ao território desconhecido conhecido por conversa espontânea. Sendo quem você é, se você permanecer assim, são boas as chances de algo que começou como uma conversa tediosa se transformar em uma conversa interessante. A coceira vai ser transformada em prazer. Sua criatividade vai ter “coçado” pra você.

Existem outros métodos saudáveis de se aliviar essa coceira. Exercitar-se é um dos melhores. Claro, você não pode começar a fazer poli-chinelo em um coquetel (até poderia!), mas se estiver sozinho em seu escritório você pode. Meditação e orações também são ambos muito bons.

Texto baseado na tradução do capítulo ‘The itch at the core of ADD’ do livro “DELIVERED FROM DISTRACTION” (“CAUSADO PELA DISTRAÇÃO”) de Edward M. Hallowell e John J. Ratey. Ambos são psiquiatras norte-americanos envolvidos com a questão do TDAH há mais de 20 anos. Além de tratar de seus pacientes, os dois também têm o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade/impulsividade.

6 comentários:

Joelson Gomes disse...

Como sempre perfeita. bjos.

Cão Pelado disse...

Mto bom o texto...
E é capaz da maioria dessas pessoas ter o TDAH e não sabem...

Passa lá e comenta tb:
http://caopelado.blogspot.com/

maria disse...

Nossa, amei o texto,
escreve muuuito bem viu ? tá de parabens pelo blog, o artigo tá muito interessante!

Adorei!

passa no meu comenta e segue ?

http://www.nadaaverpontocom.blogspot.com/

Beijos!

Dannie Machado disse...

Engraçado q tenho me sentido exatamente assim...
Bjks!

Marcello disse...

Olá.

Eu tenho tdah e realmente é importante a conscientização das pessoas.

Permita-me copiar seu texto e colar no meu blog.

Prazer em conhecer seu espaço.

Meu blog de poemas
htpp://alucinacoesamorosas.blogspot.com

Meu blog de Variedades :
http://leiovejoopino.blogspot.com

Meu blog espírita :
http://graosabedoria.blogspot.com

BIPOLARBRASIL disse...

Parabéns pelo estilo. Interessante abordagem. Já estou lhe seguindo.