sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O INFERNO SEGUNDO PAULO COELHO¹

DIAGNÓSTICOS MAU FEITOS, TRATAMENTOS EQUIVOCADOS

Por: Hellen Taynan

Perder-se mundo afora e seguir como roqueiro, hippie , contador de histórias, ou rebelde sem causa levou Paulo Coelho a ser internado por
imposição dos pais numa clínica psiquiátrica. Os pais de Paulo desejavam que ele fosse engenheiro e, por isso, desencorajam a sua dedicação à leitura. Logo Paulo começa a desafiar as normas estabelecidas pela família e o seu pai interpreta o comportamento como um sintoma de doença mental e aplicou um castigo para disciplinar seu filho, internando-no numa Clínica Psiquiátrica. O doutor Benjamim diagnosticou como uma "anomalia de personalidade que trazia latente a possibilidade de Paulo se tornar um esquizofrênico".

O pai de Paulo Coelho, o engenheiro Pedro Coelho, disse que o filho faria exames de rotina. Acabou ficando um mês. Paulo critica seu médico, Benjamim Gomes, por tê-lo internado sem nem sequer realizar um exame. Há 53 anos na Casa de Saúde, o bem-humorado psiquiatra de 85 anos, amigo da avó e da mãe do escritor, não aceita a acusação. "Eu vinha acompanhando tudo. Ele estava infernizando os pais dele, criando condições intoleráveis para a família", conta o médico bem conservado, que lembra o paciente 33 anos mais novo. O prontuário da primeira internação descreve em detalhes o comportamento do adolescente: "Segundo o pai, o paciente vem apresentando modificações psicológicas, principalmente no que se refere à conduta. Tornou-se agressivo, irritável, hostilizando abertamente os genitores. Até politicamente mostra-se contrário aos pais. Na escola, vem decaindo progressivamente e fala em largar os estudos".

As palavras do médico atualmente, afirmam reconhecer que Paulo Coelho, um profissional bem sucedido e capaz de controlar-se a si mesmo no que diz respeito a sua vida pessoal, familiar, social e fincanceira, superou qualquer trauma sofrido na infância. "Pelo que ele proclama todos os dias, com aquele feitio oriental dele, acho até que pode ser feliz", diz. Morando sozinho em um apartamento de Copacabana, de onde raramente sai, o pai preferiu não falar sobre o assunto. "Paulo é um filho maravilhoso", limitou-se a dizer o senhor de 85 anos.

O doutor Benjamim garante que, os eletrochoques nunca tocaram a pele do mago. "Ele só foi tratado com sedativos e outros remédios", diz o médico. Os relatos dos choques poderiam, ele insinua, ser mais um recurso do escritor para tornar ainda mais dramática sua história. Paulo fica indignado. "É claro que tomei choque elétrico, e várias vezes", afirma. A escultora carioca Lúcia Guerreiro, sua namorada na época, confirma. "Eu ia visitá-lo na clínica e o encontrava tremendo e babando por causa dos choques."

Casa de Saúde Dr. Eiras, dia dos pais, 14/8/1966

"Hoje é dia dos pais. Mas papai me internou numa casa de saúde para loucos. Estou longe não posso abraçá-lo, estou longe da família longe de tudo, e sei que ele, vendo os outros pais com os filhos à sua volta, a tecer-lhes carinho, sentirá pontadas agudas atingindo seu pobre coração amargurado. Mas estou interno, há vinte dias não vejo a luz do sol, e se pudesse lhe dar alguma coisa seria a escuridão de quem nada mais aspira ou almeja da vida.
(...)
Tenho de ficar quieto para não entristecê-lo mais ainda, para ele não pensar que sofro, que sou infeliz aqui, no meio desta calma imensa, só encontrável no céu, se de fato o céu existe.
Deve ser triste ter um filho como eu, meu pai..."
(Trecho de "Balada do cárcere de repouso", escrito por Paulo Coelho durante a sua segunda internação psiquiátrica)

"Quando não consegue obter o desejado, usa de artifícios nem sempre aceitáveis. Assim, assinara pelo pai um atestado que o mesmo se recusara a dar: 'Sinto que o menino vem tomando atitudes cada vez mais extremadas e isto nos levou a interná-lo'."
(Trecho do prontuário de Paulo Coelho na Casa de Saúde Dr. Eiras)

ENTREVISTA
Comecei a duvidar da minha sanidade

Época: Como foi a sua primeira internação?
Paulo Coelho: Um belo dia meu pai disse que me levaria para fazer uns exames clínicos normais. Eu nem sabia que a Casa de Saúde Dr. Eiras era um centro de psiquiatria. Tinha 17 anos. Entrei e a irmã foi logo mostrar meu quarto. Eu disse para o médico: "Você nem me examinou, como é que sabe se eu sou louco ou não?" Ele respondeu que tinha dados.

Época: O que motivou a internação?
Coelho: A relação da família estava muito tensa. Tive uma infância e uma adolescência reprimidas. Eu era o mais velho de toda uma geração na família e queria ser escritor. Tenho uma irmã mais moça e vários primos e era considerado uma influência negativa. Não queria estudar, fazia o que me dava na cabeça e era péssimo aluno. Lia Sartre, ouvia os Beatles, achava que era existencialista, usava gola rulê preta.

Época: Como é tomar um choque elétrico?
Coelho: Tomei dois tipos de choque elétrico, na clínica e na prisão. O da prisão dói. O outro faz você apagar. É horrível ver, mas não é tão ruim levar. Você acorda e não se lembra de nada. A primeira vez que levei, acordei, olhei a parede de ladrilhos e nem sabia o que era aquilo. Aí lembrei meu nome, onde estava. Nunca sofri o coma insulínico, em que induziam o interno ao coma, porém vi muitos. Mas o perigo não é esse. O perigo é que, como diz o livro, a loucura tem aspectos muito confortáveis.

Época: Como assim?
Coelho: A partir do momento em que você é louco, tudo é permitido. Comecei a duvidar de minha sanidade. A mesma relação do seqüestrado com o seqüestrador, a síndrome de Estocolmo, eu estabeleci com meu médico, doutor Benjamim. Depois de sair da clínica, nas minhas grandes crises da juventude, problemas com namorada, ia lá conversar.

Época: Como você saiu da clínica?
Coelho: Da primeira internação, recebi alta. Da segunda e da terceira, escapei. Depois de dois meses, me dei conta de que nunca tinha tentado entrar no elevador. Entrei, o elevador desceu. Saí de pijama mesmo pela rua, fui até a casa de uma amiga, peguei dinheiro, roupas, relógio, um violão. Tomei o primeiro ônibus, para Sergipe. Fiquei lá um tempão. Nem sei como, fui parar na Bahia. Lá, ficava no meio da rua passando fome, jogado. Alguém me recolheu e me levou para Irmã Dulce. Ela me deu comida, dinheiro para a passagem. Meus pais estavam assustados com minha fuga e me receberam. Passou-se um ano e mais uma internação. Da terceira, fugi quando voltava de uma consulta no dentista.

Época: Como ficou a relação com seus pais?
Coelho: Nunca os culpei. Meus pais estavam desorientados mas foram ouvir uma opinião especializada. Culpado é o médico, que decidiu me internar sem ter me examinado.
"Não escrevo livros para discutir meus conflitos e fazer catarse, mas porque acho que essa é uma experiência universal e só posso falar disso porque sou vencedor".

¹Baseado nos dados fornecido em: Revista Época - EXCLUSIVO

4 comentários:

Joelson Gomes disse...

Bjos sempre.

Mateus Ksyvickis Luz disse...

O Paulo é um louco... Nunca li um livro dele, nem curtoo...
Bah!! Lembrei do Raul Seixas agora, as músicas do Raul são perfeitas...
Vinte anos que Raul morreu... :(
Parabéns pelo blog!! Sucesso ae...

http://guardeparaosdiasdechuva.blogspot.com/
* ... música, política, celebridades ... *

Bjos...

Dannie Machado disse...

Isso me lembrou meu livro preferido dele: "Veronika decide morrer".

É verdade, 20 anos sem Raulzito!!...
Bjks!

Cleo disse...

Passando pra desejar um restinho de semana abençoado!